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ONU relata histórias de ativistas sob proteção

Publicação lançada no fim de 2012 reúne depoimentos de 10 pessoas que lutam pelos direitos humanos no País e estão ameaçadas de morte

WILSON TOSTA / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2013 | 02h09

Sob ameaça de morte, dois índios, dois religiosos, dois militantes agrários, um sem-teto, uma líder quilombola, um pescador e um ativista comunitário viraram protagonistas de Dez faces da luta pelos Direitos Humanos no Brasil, publicação lançada no País no fim de 2012 com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU).

De pontos do território nacional distantes entre si, como a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o sul da Bahia, a periferia de Manaus e o noroeste mineiro, os personagens, curiosamente, contam histórias com pontos em comum. Entre eles estão o engajamento em questões que os transformaram em alvos - como a defesa de menores infratores, a luta pela terra e até o combate ao crime organizado -, a disposição de não desistir e a inclusão no Programa de Proteção às Defensoras e Defensores de Direitos Humanos.

"Eu e minha esposa vivemos constantemente sob risco (...)", relata um dos entrevistados, o presidente da Associação dos Homens do Mar do Rio de Janeiro, (Ahomar), pescador Alexandre Anderson de Souza, no trabalho editado também com apoio da Embaixada do Reino dos Países Baixos, da delegação da União Europeia no Brasil e da Secretaria de Direitos Humanos federal brasileira. "Certamente isso interfere na minha vida particular. Tive que parar de pescar, porque não era mais seguro. Começaram a matar gente no mar."

Souza luta, desde 2003, contra empreendimentos petrolíferos na Baía de Guanabara, denunciando danos ambientais que dificultam ou inviabilizam a pesca.

Também lutam pela preservação de culturas tradicionais dois líderes indígenas que depõem na publicação. Um é Rosivaldo Ferreira Dias, o cacique Babau, chefe tupinambá de Serra do Padeiro, na cidade de Buerarema, região de Ilhéus (BA). Com três cicatrizes de tiros no corpo, Babau lidera uma luta pela terra indígena, sagrada para seu povo, e pela preservação da sua cultura. Místico e neto de pajé, diz que a mobilização é orientada pelos Encantados, espíritos que seriam intermediários entre Tupã, divindade máxima, e os mortais.

"Agora, no início da década de 2000, declararam que era hora de os Tupinambá da mata reivindicarem seu território", relata.

Outro líder indígena, o guarani-caiová Eliseu Lopes, coordenador de Mobilização da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e desde 2007 na luta pela recuperação da terra que pertencia a seus antepassados, a Kurusu Amba, relata as dificuldades vividas por seu povo em Mato Grosso do Sul. "Dependemos de cestas básicas do governo, que nem sempre chegam, e não temos educação ou atendimento em saúde. Então a situação fica muito difícil para as famílias e, principalmente, para as crianças. Só em 2010, morreram quatro por desnutrição, por exemplo", conta.

Com perfil diferente, aos 34 anos o juiz Gleydson Gleber Bento Alves de Lima Pinheiro, da 3.ª Vara Criminal de Caruaru (PE), magistrado desde os 24, notabilizou-se por sua atuação em uma investigação contra uma organização criminosa que atuava na cidade. Com envolvimento de PMs, o bando traficava drogas e cometia assassinatos - eram 180 por ano, antes das prisões, tendo caído (e se mantido) para 120 após a operação, em abril de 2007. Logo no início do processo, começou a ser ameaçado. "Foi um trabalho de um ano sob ameaças", conta.

Defensor dos direitos de crianças e adolescentes brasileiros desde 1985, o religioso italiano Saverio Paolillo, mais conhecido como Padre Xavier, coordenador da Pastoral do Menor em Serra, no Espírito Santo, lamenta que seu trabalho seja malvisto. "O trabalho do militante de direitos humanos é incompreendido", afirma no depoimento à publicação. "Ele sofre uma pressão psicológica muito forte. O olhar sobre ele é muito negativo. Fala-se mal publicamente o tempo todo. É acusado de 'defender bandido'", diz.

Também são entrevistados no trabalho a líder quilombola Evane Lopes, de Minas Gerais; o ativista comunitário João Luís Joventino do Nascimento, de Cumbe, perto de Aracati, no litoral do Ceará; o militante sem-teto Júlio César Ferraz de Souza, de Manaus; a religiosa Leonora Brunetto, da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria e atuante na Pastoral da Terra do Norte de Mato Grosso; e a militante Maria Joel Dias, também conhecida como Joelma, atuante no sindicalismo rural e na luta pela terra em Rondon do Pará (PA).

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