HÉLVIO ROMERO | ESTADÃO CONTEÚDO
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Ontem no PT, hoje Marta Suplicy está com PMDB e PSDB dissidente

Após mudar de partido, Marta viabiliza campanha com alianças que incluem ainda o PSD de Kassab

Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2016 | 23h13

Quando o vereador Andrea Matarazzo e a senadora Marta Suplicy anunciaram no dia 26 de julho que formariam uma chapa para disputar a eleição em São Paulo, aliados da senadora e do ministro Gilberto Kassab, das Comunicações, Ciência e Tecnologia, comemoraram a notícia como uma jogada de mestre da política. Afinal, até então, a aliança era considerada improvável até pelos dois protagonistas.

Era o encontro de militantes históricos de partidos antagonistas, que trocaram de legenda com o mesmo objetivo: viabilizar a própria candidatura à Prefeitura, como cabeça de chapa. Marta migrou do PT, partido pelo qual militou por 33 anos, após perceber que a aposta do partido era a reeleição de Fernando Haddad. Já Matarazzo foi parar no PSD após perder as prévias do PSDB para João Doria. Sem conseguir atrair outros partidos para seu palanque, o vereador aceitou ser coadjuvante.

Costurada pelo presidente Michel Temer e por Kassab, a aliança entre o vereador e a adversária do passado representava muito mais do que a soma dos tempos de TV do PSD e PMDB. Ex-petista, Marta teria com Matarazzo a chance de "invadir" o eleitorado tucano do centro expandido de São Paulo e ainda poderia abrir uma dissidência no PSDB entre os tucanos "autênticos" que não aceitavam a escolha de Doria, candidato "imposto" pelo governador Geraldo Alckmin. Para Temer, o acordo significava também a retaguarda do PSD, um partido estruturado e com capilaridade política na capital, ao contrário do PMDB, que em São Paulo tem estatura de nanico.

Naquele momento o cenário exalava favoritismo. Os três potenciais adversários competitivos enfrentavam problemas, cada um à sua maneira. O prefeito Fernando Haddad era rejeitado pelos eleitores e ainda tinha o peso do PT para carregar. Doria era rejeitado por lideranças tucanas nacionais como Fernando Henrique Cardoso e José Serra. E Celso Russomanno (PRB) era visto como um “cavalo paraguaio”. Enquanto isso, Marta aparecia bem posicionada nas pesquisas.

Mudança. Pouco mais de dois meses depois, a euforia se transformou em aflição. A esperada dissidência do PSDB articulada por Matarazzo reuniu pouco mais de uma dezena de militantes de base. Dos tucanos de primeiro escalão, apenas o ex-governador Alberto Goldman se posicionou frontalmente contra Doria, que avançou como um trator nas pesquisas de opinião. Amigos antigos do vereador, o senador Aloysio Nunes Ferreira, FHC e até José Aníbal, que chegou a acionar o Ministério Público contra Doria, gravaram depoimentos de apoio ao escolhido de Alckmin.

A base do PSD, por sua vez, foi "invadida" por Doria, com apoio de Alckmin. Para piorar, Marta viu o presidente Temer se transformar em um peso difícil de carregar, principalmente após a eclosão de manifestações "Fora, Temer" por causa da confirmação do impeachment no Senado, em agosto.

Em uma estratégia para recuperar os eleitores petistas ou ex-petistas que apoiavam a senadora, Haddad gastou 1/3 dos seus programas de rádio e TV para colar na senadora a impopularidade das reformas previdenciária e trabalhista. A ex-petista foi obrigada a se posicionar contra o governo de seu novo partido e, por diversas vezes, afirmou que votaria “ao lado dos trabalhadores”.

Na reta final travou uma guerra particular contra Russomanno. Naquele momento, as pesquisas de intenção de votos colocavam os dois como adversários diretos para uma eventual segunda vaga no segundo turno. Na última semana de horário eleitoral, Marta dedicou parte de seus programas para atingir o adversário. O embate, no entanto, acabou prejudicando os dois e coincidiu com a estagnação da peemedebista nas pesquisas.

Nos debates, tornou-se alvo também de Luiza Erundina, do PSOL, ironicamente pela ideia que consta em seu lema de campanha, o "Coragem para Mudar". Erundina (e também Haddad) batia na peemedebista por ter “mudado de lado”.

Em nome do filho. Em outra ironia, em plena campanha eleitoral de disputa acirrada, Marta foi chamada de "golpista" justamente pelo seu filho, algo que seus adversários não ousaram fazer. Em um vídeo gravado para promover seu novo disco, Supla disse: "minha mãe é golpista, meu pai é petista e eu sou anarquista".

Em uma das últimas agendas de campanha de Marta, o músico acompanhou a mãe numa caminhada pelo bairro de Jardim Helena. Questionado pelo Estado se era o apoio do anarquista à golpista, Supla disse apenas que estava ali "para apoiar a melhor candidata".

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