ONG de mulher de Perillo dá R$ 23 mi a faculdade envolvida em venda de casa

Entidade presidida por primeira-dama de Goiás repassou verba de bolsa a alunos carentes; Receita já investigou instituição de Walter Paulo

ALANA RIZZO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 03h06

Sigilos bancários obtidos pela CPI do Cachoeira revelam que a Faculdade Padrão, do empresário Walter Paulo Santiago, recebeu R$ 22,9 milhões da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), entidade comandada hoje pela primeira-dama do Estado, Valéria Perillo. Segundo dados repassados aos parlamentares pelo Banco Industrial e Comercial (BIC Banco), os valores foram transferidos entre os anos de 2007 e 2012 como parte do programa Bolsa Universitária.

Em 2012, a instituição de ensino já recebeu R$ 2,4 milhões das Voluntárias de Goiás. Em 2010, por exemplo, o repasse da entidade foi de R$ 3,35 milhões - naquele ano, a Faculdade Padrão declarou à Receita Federal ter movimentado R$ 7 milhões em créditos e receita bruta de R$ 16,1 milhões. Um ano depois, o repasse da OVG à instituição de ensino subiu para R$ 4,4 milhões.

Valéria Perillo está pela segunda vez à frente da OVG. Entre 1999 e 2006, ela foi responsável por instituir o programa de bolsas para alunos carentes, do qual participa a Sociedade de Educação e Cultura Goiana Ltda. (razão social da Faculdade Padrão).

Em 2004, a instituição de ensino ganhou benefício fiscal pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), do governo federal. A isenção vai até 2014.

Casa. Walter Paulo é uma das peças do quebra-cabeça em que se trasformou a venda da casa do governador Marconi Perillo (PSDB), em Goiânia. O contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso no local pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Perillo diz ter vendido o imóvel para Walter Paulo.

Ele diz que comprou o imóvel, mas que a casa estava emprestada para Andressa Mendonça, noiva de Cachoeira, atendendo a pedido de Wladimir Garcez, ex-vereador do PSDB também preso pela PF. O imóvel foi registrado em nome da Mestra Administração, empresa inativa desde 2006 e que teve como sócios pessoas ligadas à Faculdade Padrão ou a Walter Paulo.

A quebra do sigilo da Faculdade Padrão mostra ainda transferências para a Idonea Factoring, empresa já baixada na Junta Comercial de Goiás e que teria participado da compra da casa, além de pagamentos para a Gestão Assessoria Contábil e para a Alpha Administração e Participações, registrada em nome de Alex Santiago.

A faculdade já foi alvo de investigação fiscal, segundo nota técnica da Receita. O documento mostra que as incongruências nas contribuições previdenciárias da instituição entre 2005 e 2008 somavam R$ 17,2 milhões.

Os dados do Fisco apontam que a empresa tem movimentação financeira inferior à receita bruta declarada e, em 2007, alienou 17 imóveis por R$ 2,1 milhões. Todos em nome de um único sócio, Alex Marcorio Santiago. Na declaração de 2011, ele aparece como o único dono da faculdade e destinatário de R$ 4,7 milhões de lucro.

Defesa. Em nota, o Governo de Goiás informou que a Faculdade Padrão não recebeu verba do Estado. O dinheiro seria de um programa, criado por Perillo em seu primeiro mandato e depois, segundo a assessoria, copiado pelo governo federal como ProUni.

"Quando um aluno passa no vestibular, solicita a bolsa universitária e, se se enquadra no programa, ela é concedida. O aluno é quem escolhe a faculdade. E o beneficio é concedido a ele, não à faculdade," diz o texto. "Este programa contempla o aluno. Obviamente, o pagamento das mensalidades é feito à faculdade onde o aluno estuda. Em Goiás, 50 instituições de ensino superior aderiram ao programa. A Faculdade Padrão é uma entre elas. Já foram concedidas mais de 105 mil bolsas a alunos carentes."

O Estado pediu à OVG a lista de pagamentos, ano a ano, para instituições de ensino. Até o fechamento desta edição, não houve retorno. As Voluntárias de Goiás informaram que os pagamentos feitos para a Faculdade Padrão fazem parte do Bolsa Universitária. Walter Paulo não foi localizado pela reportagem.

Leonardo Augusto Ramos, sobrinho de Carlinhos Cachoeira e responsável por emitir os cheques que pagaram a casa do governador Marconi Perillo, não conseguiu comprovar à Receita Federal a variação de seu patrimônio. Em 2011, o valor descoberto foi de R$ 1,3 milhão. Uma nota técnica encaminhada pelo órgão aos parlamentares da CPI do Cachoeira aponta irregularidades nas contas e nos bens do sobrinho do contraventor.

De acordo com a nota, Leonardo apresentou indício de variação patrimonial a descoberto nos anos 2008, 2009, 2010 e 2011, respectivamente, nos valores de R$ 211.114,64, R$ 36.189,13, R$ 110.161,32 e R$ 1.347.625,73.

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