Gustavo Roth|AFP
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Olívio Dutra diz que PT 'não pode achar que é vítima' após derrocada eleitoral

Para um dos fundadores do partido e ex-governador do Rio Grande do Sul, 'não adianta dizer que a culpa é do Judiciário, do adversário, da grande mídia'; segundo ele, legenda 'tem de levar uma lambada'

Gabriela Lara, correspondente em Porto Alegre, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 14h59

Um dos quadros históricos do PT, Olívio Dutra afirmou nesta terça-feira, 4, que a legenda "não pode achar que é vítima" em referência ao parco resultado obtido pela sigla na eleição de domingo. "Não adianta dizer que a culpa é do Judiciário, do adversário, da grande mídia", afirmou o ex-governador (1999-2003) do Rio Grande do Sul, em entrevista à Rádio Gaúcha. "Existem erros graves pelos quais as pessoas estão sendo julgadas e algumas até presas." Em outro momento, ele disse que não é possível "alisar o pelo de quem cometeu tamanhos erros". Dutra é um dos fundadores do partido.

O PT, que desde sua criação sempre cresceu em número de eleitos a cada disputa municipal, sofreu um retrocesso significativo e conquistou em 2016 menos vitórias que em 2004. Há quatro anos, o PT estava na terceira colocação no ranking de eleitos, atrás apenas do PMDB e do PSDB. Neste ano, caiu para o décimo lugar. A legenda conquistou 256 prefeituras este ano contra 638 em 2012. Sete candidatos da legenda vão disputar o segundo turno, o que, em caso de vitória, levaria o índice de perda de representatividade da sigla a 59% em relação a 2012.

Dutra classificou de "legítima, consciente e necessária" a reação do eleitorado contra o PT na eleição de domingo. "O PT tem de levar uma lambada forte mesmo porque errou, e errou seriamente", disse Olívio, que também foi ministro das Cidades no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na entrevista, Olívio atribui o atual momento vivido pelo PT à postura das "figuras que atuaram na direção do partido" e que se envolveram em atos que desembocaram "nesse desgaste total", referindo-se a atos de corrupção.

Questionado sobre as práticas que ele condena, o petista citou que é errado, por exemplo, ter a percepção de que o Estado deve ser assumido como propriedade de governantes, familiares e financiadores de campanha. Ele também criticou a aceitação daquilo que chamou de "coligações esdrúxulas" para vencer eleições.

'Guarda-chuva'. Perguntado especificamente sobre o ex-presidente Lula - que é réu na Lava Jato -, Olívio disse que o colega de partido é uma pessoa com "enorme sensibilidade" para as questões sociais e um político "que parece estar sempre adiante das coisas, mas também facilitando muito". Segundo o gaúcho, Lula abriu um "enorme guarda-chuva" que acabou protegendo quem não tem nenhuma relação com o projeto de um partido de esquerda, democrático e participativo. "O Lula tem uma generosidade enorme e por isso agora tem que ficar dando explicação porque abriu esse guarda-chuva", resumiu.

Para Olívio, que concorreu a uma vaga no Senado Federal nas eleições de 2014, mas não foi eleito, o PT precisa se renovar. "O partido agiu com a velha política que contamina tantos outros partidos, dizendo que tem mais ladrão lá do que aqui. Isso é uma guerra de bugio que não tem fundamento", disparou. Ele frisou que não tem intenção de sair do PT porque entende que a renovação é possível. Disse que não há receita milagrosa, mas que a tentativa de resgatar as raízes da legenda passa por instigar a cidadania.

"Evidente que tem de se ter conteúdo e prática muito diferentes desses conteúdos e práticas dos discursos dessa maioria que está dirigindo o partido", disse. "Mas não saio do PT. Acho que há espaço no PT pra gente retomar o caminho certo."

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