O ‘trem fantasma’ do minsitros da Justiça

Cardozo diz que pasta que dirige enfrenta diariamente 'situações de susto'

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2013 | 02h10

Diante de um expressivo 'PIB' da advocacia de São Paulo - uma centena de advogados, juristas e criminalistas de renome, muitos dos quais frequentemente batem nas operações da Polícia Federal -, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu ontem a corporação e comparou a pasta que dirige a um "trem fantasma".

"Eu costumo dizer à presidente Dilma, eu digo a ela: a senhora me deu um parque de diversões que só tem um brinquedo, o trem fantasma. Porque todo dia nós temos situações de susto, fatos que nos geram preocupação", disse Cardozo em reunião-almoço no Jockey Club, onde foi homenageado pelo secular Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), uma história de 139 anos.

Na exaltação à PF, Cardozo foi enfático quando fez menção ao cerco a clientes em potencial dos notáveis doutores que ocupavam as mesas. "A Polícia Federal tem tido um papel muito importante no combate à criminalidade no País, dentre outras formas de crime os chamados crimes do colarinho branco, as situações de corrupção."

Ele conquistou aplausos quando fez ironia. "É muito curioso porque toda vez que a Polícia Federal prende alguém que, do ponto de vista político, é tido como adversário do governo, a acusação que tem é que o ministro (da Justiça) está instrumentalizando a Polícia Federal para os desígnios governamentais. Quando, porém, a PF prende pessoas que são aliadas ao governo se diz que o ministro perdeu o controle da Polícia Federal. Ou seja, não há escapatória."

"Decidam", pediu Cardozo. "Eu instrumentalizo ou eu não tenho controle. Quando, na verdade, não é nem uma coisa, nem outra. Quer dizer, se construiu a ideia, e que eu defendo e defenderei sempre, que a Polícia Federal é uma polícia republicana, que aja com autonomia."

Para ele, "o ministro deve intervir apenas e tão somente quando há abusos". "Não havendo abusos a polícia tem que seguir o seu caminho", pregou. Ele disse que, "entre essas tensões todas, cotidianas, que se colocam, que se afirmam, o ministro tem que escolher ou eleger algumas prioridades".

Cardozo ressaltou que o Ministério da Justiça superou a fase da vinculação às estruturas autoritárias de governo. "(O ministério) teve um papel perverso na época da ditadura militar. Eu me lembro quando presido a Comissão de Anistia, que é um dos órgãos da pasta. A comissão tem que anistiar pessoas que sofreram ações da ditadura militar. Uma das coisas que o ministro tem que fazer é pedir desculpas ao anistiado por aquilo que o Estado brasileiro fez. Isso me emociona muito. Eu era muito jovem na época da ditadura, mas senti o que ela fez."

Falou da "diferença dos tempos" e fez alusão a Armando Falcão, ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel (1974-1979) cuja marca era o silêncio. "No passado, os ministros da Justiça diziam 'Não tenho nada a declarar'. Hoje, eu sou obrigado a declarar e pedir desculpas."

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