Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

O sonho de Matarazzo de chefiar a cidade continua

Experiência ao longo de gestões Serra e Kassab não foi páreo para a falta de tempo de TV e de apoiadores de peso na campanha

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Sentado em uma mesa em uma doceria judaica no Bom Retiro, na região central da cidade, Andrea Matarazzo (PSD) é o centro de uma roda que reúne líderes comunitários do bairro e do vizinho Canindé, além de donos de confecções da região e empresários de origem sul-coreana. Traz diagnósticos que vão ao encontro das reclamações do pequeno público e aponta soluções recebidas com entusiasmo. Cenas parecidas se repetem em outras regiões da cidade, com outros públicos. Quem observa a reunião, uma conversa política tradicional, fica com a impressão de que, antes do fim da campanha, a candidatura irá decolar.

Mas a experiência adquirida ao longo das gestões José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) não foi páreo para o pouco tempo de TV, a falta de apoiadores de peso e uma presença morna nas redes sociais para o descendente político do clã de industriários na campanha para a Prefeitura neste ano: por mais que tivesse habilidade para mostrar seu conhecimento dos problemas da cidade e acesso a interlocutores capazes de formar opinião dentro de seus redutos locais, Matarazzo não saiu da casa do 1% das intenções de voto.

A participação como mero figurante na sua primeira tentativa de eleição para o Executivo foi como o terceiro capítulo de uma jornada que começou na gestão Fernando Haddad (PT), quando o ex-embaixador do Brasil na Itália, ex-secretário de diversas gestões tucanas e ex-ministro de FHC obteve seu primeiro mandato na cidade, se elegendo vereador.

A eleição se deu após o candidato chefiar os serviços de zeladoria de Serra e Kassab, onde ganhou fama por parte da imprensa de ser um “xerife”. O mandato de parlamentar, quando assumiu a voz da oposição, serviria para pavimentar o caminho que o levaria ao 5º andar do Edifício Matarazzo, a sede da Prefeitura que leva o nome de sua família. Nunca escondeu: “Meu sonho é ser prefeito.” Dizia almejar uma gestão histórica, queria ver seu nome ao lado dos prefeitos históricos, como Prestes Maia e Faria Lima. “Uma gestão para revolucionar a cidade.”

O que ficou fora do radar até ser tarde demais foi a blitzkrieg organizada por João Doria, que dominou o diretório municipal do PSDB na cidade em 2016 e lhe tomou a chance de disputar o cargo. Muito contrariado após ser preterido na decisão do partido sobre quem seria o próximo candidato à Prefeitura, um dos tucanos símbolos do partido na cidade deixou a legenda atirando. “João Doria é uma piada pronta”.

A proximidade de Kassab lhe garantiu abrigo para se manter na política e, ainda naquele ano, ele protagonizou uma improvável chapa encabeçada com a ex-adversária Marta Suplicy, que havia deixado o PT após também ter sido sacada do posto de candidata a prefeita pela legenda de Lula. A dupla lançou uma candidatura com os dois nomes contra seus ex-partidos para ver João Doria levar a disputa no primeiro turno.

Nos três anos seguintes, Matarazzo recebeu o compromisso de Kassab de que sairia candidato. Parte dos vereadores da cidade chegou a advogar que o partido se sairia melhor se unir à chapa com 11 legendas aglutinadas ao redor de Bruno Covas. A candidatura do PSD foi oficializada no dia 31 de agosto, primeiro dia autorizado para tal pela Justiça Eleitoral, para afastar esses rumores.

Matarazzo testou a temperatura de adotar um discurso conservador e se aproximar de Jair Bolsonaro. O PSD de Kassab é essencialmente governista, e teve cargos nos governos Dilma, Temer e é a legenda que simbolizou a aproximação do atual presidente com o centrão, quando assumiu o ministério das Comunicações com Fabio Faria. Nesse espírito, a vice do candidato foi oferecida à deputada estadual Marta Costa, da Assembleia de Deus. Mas quando Celso Russomanno (Republicanos) se lançou candidato, com o apoio explícito do presidente, o candidato corrigiu rumos e se focou nas críticas ao prefeito Bruno Covas.

Ele discorda da leitura. Segundo informa sua assessoria, Matarazzo "nunca quis se aproximar do presidente" e o único encontro que tiveram, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), se deu pelo fato de o candidato ser diretor da instituição. "A candidata a vice-prefeita Marta Costa foi escolhida por sua competência e por ter três mandatos de vereadora e dois de deputada estadual", complementa sua equipe. 

O PSD tem quatro vereadores na Câmara Municipal e um deles (Rodrigo Goulart) deu apoio explícito a Covas na disputa. A divergência foi respeitada por Kassab, que garantiu ao divergente espaço na campanha de TV.

Matarazzo tem 64 anos e aparenta vigor para permanecer na vida pública. Ele conta com o respeito dos dirigentes do antigo partido e do atual. São requisitos básicos para continuar perseguindo o sonho de chefiar a cidade. O próximo gesto já deve ser dado na semana que vem, quando se posicionar (caso o faça) sobre quem apoiará em um eventual segundo turno.

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