O sindicalismo trombou com o Planalto

Estilo Dilma de negociar reajustes, endurecendo e recorrendo à Justiça, surpreende grevistas e deixa as centrais com saudades de Lula

GABRIEL MANZANO , ROLDÃO ARRUDA , VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h02

Mais cedo do que imaginavam, os movimentos sindicais descobriram razões para ter saudades da Era Lula. Depois de oito anos de intimidade com o Planalto, eles perceberam nas últimas duas semanas que, na cadeira do velho amigo do ABC que lhes garantiu tantos avanços, está sentada uma economista exigente, que jura não ter dinheiro para reajustes e manda dizer, de quebra, que vai cuidar primeiro dos brasileiros mais desprotegidos.

A essas duas surpresas se somaram outras. Nas negociações com 36 categorias, que representam cerca de 1 milhão de trabalhadores, a presidente Dilma Rousseff mandou sua equipe tratar diretamente com as categorias - sem as centrais. Por fim, na última quinta-feira ela recorreu ao Superior Tribunal de Justiça para proibir operações-padrão de policiais em portos, estradas e aeroportos.

Impensável nos dois mandatos de Lula, em que o atendimento das demandas sindicais sempre mereceu simpatia, esse clima frio, de reuniões técnicas sobre números, acendeu um alerta nas relações entre o Planalto e os meios sindicais. Em um dos encontros, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, avisou que o ponto dos grevistas seria cortado. "Isso faz parte do passado", retrucou no ato Oton Neves, do Sindicato dos Servidores Públicos Federais.

"De fato, Dilma não tem relação afetiva ou profissional com o movimento sindical", admite o economista Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assuntos Parlamentares, o Diap. "Seus ministros não têm origem sindical nem são do serviço público." Familiarizado com os meandros dessas negociações, o professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp, Ricardo Antunes, define o episódio como "o primeiro grande impasse do governo Dilma na área social". Segundo Antunes, "até mesmo a Central Única dos Trabalhadores e a Força Sindical reconhecem a postura dura de Dilma". Seu governo não tem ministros dialogando com trabalhadores "e o Ministério do Planejamento, que devia fazer as contas e programar as negociações, não tem lastro social".

Longe do PT. A resistência da presidente em negociar já ecoou nas conversas entre dirigentes e parlamentares petistas. Incomodados com sua rigidez, alguns deles afirmam que o governo do PT está, sim, se distanciando de suas bases, o que é preocupante num ano eleitoral como o de 2012.

Apesar de dizerem em público que Dilma está certa em não ceder aos grevistas, esses dirigentes avaliam, a portas fechadas, que a presidente e sua equipe perderam o "timing" da negociação, deixando o movimento fugir do controle. Conclusão: a fatura a ser cobrada poderá ser maior.

Na quarta-feira, a insatisfação aumentou quando a presidente anunciou um vasto plano de concessões de ferrovias e rodovias à iniciativa privada - coisa de R$ 133 bilhões em 25 anos. Com isso, ao estranhamento na negociação sindical se somou uma desconfiança quanto ao seu compromisso com o modo petista de governar.

Correção de rota. Nesse cenário, o cientista político José Alvaro Moisés, da USP, descarta as versões de um afastamento de Dilma das origens lulistas de seu governo: não há "um deslocamento ideológico" para uma posição menos à esquerda, mas "uma correção de rota" de um governo de esquerda que "tenta dar mais racionalidade às suas ações".

Moisés vê no atual embate duas coisas em jogo. Primeiro, o tipo de coalizão que sustenta o governo - grupos "que querem compartilhar o poder, mas não as responsabilidades de governar". Nem a CUT nem o PT, diz ele, expressam solidariedade à presidente, numa situação em que ela aparentemente quer aplicar critérios de racionalidade às negociações com os grevistas. Segundo: as centrais tentam aproveitar o atual episódio para "recuperar o terreno perdido" para grupos surgidos mais à esquerda, no movimento trabalhista.

Por seu lado, Queiroz, do Diap, descarta as desculpas de que falta dinheiro. O governo fala em queda de arrecadação e de exportações, para endurecer, "mas o fato é que a despesa com pessoal tem caído em relação ao PIB". Ele também não vê, no horizonte, nenhuma chance de enfraquecimento das centrais: "Elas estão, institucionalmente, em todas as instâncias colegiadas em que interesses dos trabalhadores sejam objeto de discussão".

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