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O que está em jogo

Nem em 1994, ano do Plano Real, uma campanha eleitoral  discutiu tão intensamente como esta temas macroeconômicos, quase sempre áridos demais para as pessoas comuns.

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2014 | 22h00

A candidata Marina Silva, por exemplo, está anunciando na TV  e nos debates que quer a volta do tripé econômico (responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio  flutuante). Defende a autonomia do Banco Central e o retorno  das agências reguladoras à função original, administradas  por critérios exclusivamente técnicos, e não mais políticos.

A presidente Dilma Rousseff não fica atrás. Sente-se agora  na obrigação de rebater as propostas econômicas da oposição.  Na semana passada, ela enveredou por atalhos surpreendentes.  Afirmou várias vezes, por exemplo, que estava “preocupada”  com as propostas de Marina contra a política industrial ou  com as que retiram prioridade ao desenvolvimento do pré-sal.  O que impressiona não é o conteúdo das propostas, mas a  confissão da presidente de que se preocupa com algumas  delas. Se tem certeza de sua vitória, não teria por que se  preocupar com propostas perdedoras.

Nas eleições passadas, os temas econômicos permaneceram  subjacentes, episodicamente esgrimidos pelos candidatos. Desta vez, têm de ser explicitados porque a percepção geral  é de desencanto, provocado não pela incapacidade de concretização do sonho consumista das novas classes médias, mas pela insegurança causada pela inflação alta demais e pela sucessão de maus desempenhos da atividade econômica.

Independentemente das batalhas verbais, não há escapatória para o próximo governo a não ser providenciar fortes ajustes  na política macroeconômica. Eles podem não tomar o movimento brusco de um cavalo de pau, mas é impraticável prosseguir com grande parte das variáveis do atual jogo econômico. Na semana passada, a presidente Dilma, que nunca antes  reconhecera falhas na sua administração, admitiu mudanças não apenas na equipe, mas na política econômica. Não é apenas uma concessão aos críticos. É uma necessidade  técnica, digamos assim. 

Tomemos a questão dos preços administrados. O represamento das tarifas dos combustíveis, da energia elétrica e do transporte coletivo urbano terá de ser revertido sob pena de perpetuar enormes distorções e criar outras. 

Outro preço represado para segurar a inflação é o câmbio. Parece impossível dar prosseguimento à atual política que despeja quase US$ 100 bilhões em swaps (equivalentes a vendas de dólares no mercado futuro) em cada semestre. Não há remédio senão deixar que o câmbio se desvalorize.

O “desrepresamento” dos preços administrados e do câmbio, por sua vez, exigirá contra-ataque à inflação com outros instrumentos: apertos na política fiscal e uma política  monetária (política de juros) mais sustentável do que a  adotada por Dilma até aqui.

Também é inevitável dar prioridade ao investimento. Mas o investimento só virá se houver recuperação da confiança. Está condenada a política econômica experimentalista e com ênfase no consumo que prevaleceu até agora.

Isso implica o retorno a modelo de política econômica de  estilo clássico. Discutível é apenas a velocidade e a intensidade desse processo. Se for excessivamente lento e  gradual, poderá prolongar demais o processo de recuperação, o que tende a provocar insegurança. Se for mais brusco e  mais radical, aumentará a conta a ser repassada à população  – mas poderá, também, antecipar a virada.

Os primeiros dois anos do novo governo enfrentarão duas  novas adversidades. A primeira é a perspectiva de uma temporada de preços relativamente mais baixos das  commodities, fruto do aumento da produção e desaceleração do consumo. A outra será o enxugamento de dólares no mercado  internacional pela já anunciada reversão da política de farta emissão de dólares pelo Federal Reserve (o BC dos  Estados Unidos). 

Outra adversidade tem a ver com a baixa esperada das commodities conjugada com valorização do dólar. É um fator que deverá reduzir a receita de moeda estrangeira e, em alguma medida, a arrecadação de impostos.

A redução da capacidade de importar exigirá redução do consumo e um esforço adicional para atrair dólares, tanto para dar cobertura para o déficit crescente das contas externas (contas correntes) como para compor a necessidade de investimentos.

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