O professor de marxismo da presidente

Livro traz relato de Dilma sobre Carlos Alberto Freitas, o Beto, com quem ela militou nos anos 60

O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h04

Em dezembro de 2009, a jornalista Cristina Chacel foi recebida em Brasília pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ela estava escrevendo um livro sobre o desaparecido político Carlos Alberto Soares de Freitas e, depois de descobrir que ele havia sido uma espécie de tutor ideológico da ministra, quando ela ingressou na Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (Polop), pediu a entrevista.

Dilma, que àquela altura já preparava o lançamento oficial da candidatura à Presidência, recebeu-a cercada de assessores e de muita cautela. Aos poucos, porém, relaxou. Deu um depoimento de uma hora e meia, durante o qual cantarolou algumas das músicas preferidas de Freitas, e até chorou.

Uma parte desse depoimento acaba de chegar às livrarias, no livro, finalmente concluído, Seu Amigo Esteve Aqui, da editora Zahar. É sobretudo uma homenagem a Freitas - também chamado de Beto, entre amigos e familiares, e Breno, codinome na clandestinidade.

Ele foi um dos fundadores da Polop. Passou pela VAR-Palmares e, mais tarde, organizou o Comando de Libertação Nacional (Colina). Foi visto pela última vez no Rio, em 15 de fevereiro de 1971. Segundo relato de um militar, foi executado com um tiro na cabeça, após passar dois meses detido na Casa da Morte - centro clandestino de tortura mantido pela ditadura em Petrópolis, no Rio.

Dilma aproximou-se da Polop em 1965, aos 17 anos e ainda matriculada no Colégio Estadual Central de Belo Horizonte. Para ser aceita na organização, teve de passar por um cursinho básico sobre o pensamento da esquerda, com leituras de Karl Marx, Lenin, Leon Trotski e Rosa Luxemburgo, entre outros.

Enfrentou quase duas horas diárias de estudo, durante meses, sob a orientação de Beto. Aos 25 anos, ele já havia concluído a faculdade de sociologia, mas continuava no movimento estudantil. "Eu li tudo do Lenin com ele, sem exceção", recordou Dilma.

Foi o início de uma convivência intensa e arriscada, que durou até 1970, quando a futura presidente caiu presa em São Paulo. Ela acompanhou Beto na VAR-Palmares e no Colina. Na clandestinidade, no Rio, um dos prazeres dos dois, segundo Dilma, era, após algumas economias, comer pato com laranja na Rua Barata Ribeiro. "A gente deixava de comer algumas refeições, o almoço ou o jantar, por três dias, para comer o pato."

Os dois estavam juntos no célebre assalto ao cofre que o ex-governador paulista Adhemar de Barros mantinha na mansão de sua amante, no Rio. Uma tarefa de Dilma, nos dias seguintes, foi trocar em uma casa de câmbio uma pequena quantia dos US$ 2,7 milhões achados no cofre.

O objetivo dos assaltos era financiar focos de guerrilha e instituir o socialismo no País. Era a época em que o sucesso da revolução de Fidel Castro em Cuba incendiava a imaginação da esquerda da América Latina. /ROLDÃO ARRUDA

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