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João Bosco Rabello
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O principal está garantido

Até quarta-feira só uma catástrofe não imaginada - e nem desejada - teria força para se impor ao suspense sobre o voto do ministro Celso de Melo, que decidirá pelo encerramento ou prorrogação do julgamento do mensalão. No melhor estilo novelesco, o tribunal reservou para a reta final seu mistério maior - em que regime o ex-ministro José Dirceu e cia cumprirão suas penas.

João Bosco Rabello,

15 de setembro de 2013 | 02h04

Em regime semiaberto ou fechado, porém, o efeito principal do julgamento está garantido na irreversibilidade da condenação à cadeia, que resume a admissibilidade do crime político, o desvio de dinheiro público e o rompimento com a impunidade secular no Brasil, com raízes numa cultura de privilégios - da qual o foro especial, por ironia, é filho legítimo.

O regime fechado, que para alguns ministros é sentença excessiva, para outros é exemplar, por teoricamente desencorajar novas iniciativas de corrupção. E mesmo essa perspectiva parece insuficiente para inibir novos atos criminosos como indicam as denúncias contra o Ministério do Trabalho. O PT está sendo condenado, mas o PDT, a metros do prédio do STF, desvia mais de R$ 400 milhões.

E um de seus deputados, Paulinho da Força, monta um novo partido com fraudes no número de assinaturas exigidas para o registro, alcançado com a apropriação de cadastros de sindicatos. Os sindicatos que estão presentes nas falcatruas do Ministério do Trabalho e, sabe-se agora, também na formação do PSOL, que reproduz o figurino de vestal do PT de outrora, mas cuja máscara começa a cair em menos tempo do que a de sua matriz inspiradora.

A presidente do diretório do PSOL do Rio, Janira Rocha, admitiu desvio de dinheiro do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência Social para custear sua candidatura e a própria construção do partido.

O PSOL reagiu como o PT, com a naturalidade de quem não deve explicações, possivelmente por concordar com a desculpa de Janira: "Tem roubo? Não tem roubo. Mas quem tá de fora não entende. Ninguém ficou com dinheiro, foi para ação política. Ou acham que fundar o PSOL foi barato?"

Nada mais representativo do pensamento da esquerda brasileira, de que desvio de dinheiro público tem licença ideológica: se for para a causa em que acreditam, é nobre. Fora disso, é crime dos "conservadores elitistas".

É o que repete o conteúdo da recente entrevista do ex-ministro José Dirceu, atribuindo sua condenação a uma perseguição da elite que jamais aceitou Lula. Acusação recorrente, que elege culpados para seus atos, indiferente ao fato de que Lula governou muito bem com essa mesma elite - parte dela vivendo o governo Dilma com indisfarçável nostalgia.

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