O poder da bola

Com a Copa na memória e Olimpíada do Rio à vista, Brasil busca projetar sua imagem

Sílvio Barsetti e Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2014 | 22h00

País de modesta tradição no futebol, a Ucrânia, por sua Federação de Futebol, decidiu há três semanas cancelar o convite para um amistoso com o Brasil. Oficialmente, a causa foi o fracasso do futebol brasileiro na Copa de 2014. Nos bastidores admite-se, no entanto, que foi uma represália à posição brasileira de elogio à política da Rússia para Síria e Oriente Médio e de silêncio sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia. Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, foi mais direto. Em reação contra a retirada do embaixador brasileiro em Israel - um protesto contra a ação militar “desproporcional” contra a Faixa de Gaza -, chamou o País de “gigante econômico e cultural” e “anão diplomático”. E disse que desproporcional foi o 7 a 1 da Alemanha no Brasil.

As duas situações significam muito. Por muitos anos, a imagem do Brasil no exterior esteve associada às façanhas do futebol, protagonizadas pelo Santos, de Pelé, e pelo Botafogo, de Garrincha, nas décadas de 50 e 60, além dos cinco títulos mundiais. Agora, a ‘pátria de chuteiras’ virou motivo de chacota internacional, em movimento coincidente com mudanças na política internacional do País, iniciadas em 2011.

Visibilidade. Megaeventos como Copa do Mundo e Olimpíada estão no horizonte da diplomacia. Eles permitem uma visibilidade ímpar ao país-sede, melhoram sua imagem e criam ambiente favorável a negócios. Projeções da Fifa indicam que cerca de 3,5 bilhões de pessoas assistiram aos jogos da Copa no Brasil em quase 200 países. É uma publicidade de valor inestimável, embalada no sucesso do Brasil fora de campo.

Desde 2003, o governo Lula investiu na aproximação com países à margem da economia mundial. Também procurou sinalizar para o mundo as mudanças internas pelas quais passava o País. A operação diplomática e militar no Haiti (acima) é exemplo disso. Interessado em uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil assumiu em 2004 o comando da Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (Minustah). Juntando diplomacia com esporte, promoveu um jogo amistoso com a seleção local de futebol. Craques brasileiros desfilaram em carros de combate por ruas tomadas por multidões eufóricas. Era a diplomacia da bola - uma causa que, desde então, não teve continuidade.

O prosseguimento da atual política externa brasileira depende dos resultados das eleições de outubro. Aécio Neves (PSDB) dá sinais de querer mais proximidade com os EUA e menos espaço ao Mercosul e ao bolivarianismo. . O prestígio internacional de Marina Silva (PSB/Rede) junto a governos e ONGs ambientalistas sinaliza mais preocupação com as políticas ambientais planetárias.

Há dias, o presidente eleito de Israel, Reuven Rivlin, telefonou para Dilma Rousseff e desautorizou o assessor que havia criticado o Brasil. Já a Ucrânia assiste em silêncio ao fortalecimento dos vínculos Brasil-Rússia. São exemplos de episódios em que o fracasso em um grande evento esportivo foi usado para diminuir um país. O modo como o Brasil se sair em 2016, com a Olimpíada no Rio, terá seu peso, inevitavelmente, no conjunto de suas relações com o mundo.

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