Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

'O PIB, para o povo, é o emprego e a renda', diz Mercadante

Articulador político de Dilma, ministro petista não vê na economia um obstáculo à reeleição

Vera Rosa e Marcelo de Moraes - atualizado às 8h

05 Abril 2013 | 02h08

Com a tarefa de auxiliar a presidente Dilma Rousseff na articulação política do governo, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, dá o tom da campanha da reeleição, em 2014. "O PIB, para o povo, é emprego e renda", diz ele, amenizando o "Pibinho" de 0,9% de 2012 e a previsão de um crescimento também pequeno neste ano. "É possível, sim, combater a inflação e manter a estabilidade preservando o emprego."

Mercadante participou, na quarta-feira, de uma conversa de sete horas entre Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci, o presidente do PT, Rui Falcão, e o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho. Na ocasião, foi feito um pente fino dos apoios conquistados para a campanha da reeleição e avaliados os palanques para Dilma nos Estados.

A preocupação do Palácio do Planalto, agora, é com a economia. "Sobre isso (a reunião com Dilma e Lula) eu não falo", desconversou Mercadante.

O ministro criticou o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, para quem a instituição, atualmente, está leniente demais com a inflação, e deu uma estocada no PSDB. "Acho engraçado porque, quando ele era presidente do BC, ninguém podia escrever ou dizer que a taxa de juros podia cair. Mas, agora, dizer que a taxa de juros tem que subir pode", provocou. Fraga é um dos interlocutores do senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB.

Na lista dos pré-candidatos do PT ao governo paulista, Mercadante defendeu chapa própria do partido ao Palácio dos Bandeirantes, mas sinalizou que o escolhido pode não ser ele. "Na vida pública, quem tem tempo não tem pressa", resumiu. Nos bastidores, petistas apostam que Mercadante poderá substituir a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) a partir de março de 2014, quando ela deixará a equipe para ser candidata do PT ao governo do Paraná. A seguir, os principais trechos da entrevista:

A presidente Dilma disse, na África do Sul, não concordar com políticas que reduzem o crescimento para combater a inflação. O mercado reduziu apostas na alta futura dos juros e ela afirmou que a declaração foi manipulada. Mas esse não é o pensamento do governo, uma posição até dogmática?

Quem fala de economia é o ministro da Fazenda e quem fala sobre juros é o presidente do Banco Central. A independência operacional do BC sempre foi respeitada no governo. A história econômica do Brasil talvez seja o melhor exemplo. Se desemprego combatesse a inflação, o Brasil não seria o país que teve a mais longa hiperinflação, com 14 anos. É possível, sim, combater a inflação e manter a estabilidade preservando o emprego. Não há uma relação mecânica entre taxa de juros e emprego. O Brasil saiu dessa armadilha.

Como?

Nós tínhamos, em 2002, uma dívida líquida do setor público de 60,4% do PIB. E nós tivemos, em 2012, 35,1%. Então, houve um desendividamento do Estado brasileiro. O Brasil é um dos poucos países do mundo que, mesmo na crise, conseguiu continuar reduzindo sua dívida pública. Essa redução permitiu que a taxa de juros, que era de 8,5% do PIB, caísse para 4,8%. O que significa isso em termos de valores? À medida que o Estado reduz o pagamento de juros, ele está tirando do mercado o equivalente, em dez anos, a R$ 162,9 bilhões. Só do ano passado para cá são R$ 39,6 bilhões. Então, a redução dos juros é uma mudança de padrão da economia. O lucro financeiro das empresas e dos bancos caiu fortemente. Mas, de outro lado, o Brasil conseguiu, com as políticas de inclusão social, com o salário mínimo, o crescimento do emprego e o Bolsa Família, criar um amplo mercado de consumo de massas. A âncora do crescimento é o mercado interno.

Que taxa de crescimento o governo prevê para o ano eleitoral de 2014?

Acho cedo para falar isso. Tem que aguardar um pouco a evolução do cenário, especialmente do internacional. A situação na Europa continua muito difícil, os Estados Unidos estão se recuperando por causa do shale gas (gás de xisto), que é uma economia muito inovadora, e a China desacelerou de um patamar de 11% para 7,5%. O Brasil melhorou suas reservas cambiais, reduziu de forma importante os juros e ajustou o câmbio. Isso aumentou a competitividade. A presidenta Dilma reduziu o preço da energia, a carga tributária das empresas, desonerou os produtos da cesta básica e está fazendo um grande programa público-privado de investimento. Vamos ter concessões importantes de gás e petróleo que melhorarão muito esse setor daqui para o ano que vem e estamos investindo muito em educação. Um grande passo que daremos para esse caminho será colocar 100% dos royalties do pré-sal para a educação. Esse é um debate que o Brasil precisa fazer.

Mas está havendo uma guerra no Congresso em relação aos royalties...

Tudo é passível de debate, mas eu acho que, se as prefeituras, o governo do Estado e o governo federal aderirem a essa visão, daremos um salto extraordinário no Brasil, na próxima década.

A alta popularidade da presidente Dilma resiste a um Pibinho em 2014, um ano eleitoral?

Nós tivemos um PIB de 0,9% (no ano passado). Talvez a correção do PIB seja um pouco mais. Eu tenho uma visão própria sobre isso. Acho que, com essa redução dos juros, na hora em que você tira quase R$ 40 bilhões do mercado, isso aparece na contabilidade. Mas os indicadores duros do crescimento são melhores do que isso: as vendas, o consumo de energia, o aumento de emprego. Acho que há um problema de como você capta essa informação. Acho que foi um pouco melhor. Mas vamos aguardar, o IBGE sempre faz revisão. O que é o PIB para o povo? O PIB para o povo é emprego e renda. E o emprego e a renda continuam crescendo.

Mas e se os juros subirem?

Eu acho que o Delfim Netto (ex-ministro da Fazenda) respondeu bem essa questão. Para a taxa de juros ter algum impacto em termos de desemprego, você tinha que ter uma elevação de juros de 25%, uma coisa que ninguém pensa nem discute. É preciso desassociar inflação e juros. Nós já tivemos taxa de juros maior, com o País crescendo mais, e taxa de juros menor, com o país crescendo menos. Não há essa relação direta como está se tentando construir. Agora, o mundo está buscando competitividade, aumentando o desemprego e arrochando salário. Nós estamos buscando um caminho alternativo. O patamar de juros, hoje, é outro: pequenas oscilações que podem ocorrer, e ocorrerão, não interferem nesse mudança de patamar. A economia está sofrendo uma transição, que é complexa, mas indispensável. O Brasil está alinhando a sua taxa de juros às taxas internacionais.

O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga disse, em entrevista ao 'Estado', que a instituição, hoje, está leniente demais com as expectativas de inflação e mencionou até a questão do emprego, que poderia causar uma pressão inflacionária. Como o sr. rebate isso?

Acho engraçado porque, quando ele era presidente do Banco Central (no governo Fernando Henrique Cardoso), havia uma defesa muito forte da independência da instituição. Ninguém podia escrever ou dizer que a taxa de juros podia cair. Mas, agora, dizer que a taxa de juros tem que subir pode.

Até quando o Brasil consegue manter a Selic congelada em 7,25%?

Por tudo o que eu acabei de dizer não sou eu que vou opinar sobre isso. Só faltava agora você pedir para eu opinar sobre isso. Não é minha área. A única coisa que questiono é que quem esteve lá, praticou as taxas (de juros) que praticou e dizia que ninguém deveria opinar sobre as decisões do BC agora faz exatamente o contrário. Não acho correto. Eu, particularmente, respeito e confio na competência técnica do BC.

O governo cortou impostos da cesta básica, reduziu o preço da conta de luz e prevê a desoneração do PIS e da Cofins que incidem sobre o óleo diesel para segurar o preço das passagens de ônibus. O que mais pode ser cortado?

A presidenta está buscando aumentar a competitividade da economia . Redução do IPI e desoneração da folha de pagamento aumentam a competitividade. Ela está compartilhando a redução dos juros, estrutural, com o setor produtivo. Isso tem de ser feito numa visão de responsabilidade fiscal. A trajetória de desendividamento tem de ser mantida para que essas coisas sejam duráveis. Não podemos ir além daquilo que é a consistência fiscal da política econômica. Por isso, tudo tem que ser feito passo a passo, avaliando os impactos para manter os investimentos sociais e a desoneração, que só é possível com a trajetória de queda da dívida pública. Ela está sempre olhando para a relação dívida pública.

O PSDB e o DEM criticam a forma como foi feita a redução da tarifa de energia elétrica e chamam a medida de "eleitoreira". A oposição diz que, por isso, a Eletrobrás já registrou o primeiro prejuízo. O governo não vai responder?

O Brasil tem que reduzir o custo da energia se quiser ser competitivo. Somos um país onde investimentos estruturantes em recursos hídricos já têm mais de 30 anos. A amortização já foi feita. Se a oposição prefere aumentar a margem de lucro dos investidores em energia hídrica, em vez de reduzir o custo para toda a economia, para o consumidor, para as famílias e para a indústria, nós entendemos. Eles podem defender esse caminho, mas não é o nosso.

Existe preocupação do governo com essa nova classe média, para que ela não seja afetada por dificuldades da economia, já que essa camada ajudou a aquecer o consumo? Vem aí algum agrado para a classe média?

O governo está sempre buscando fazer mais e melhor. A economia sempre tem ciclos, mas a mudança de modelo de desenvolvimento está consolidada. Estamos caminhando para erradicar a pobreza extrema e isso, além do significado social, criou um mercado de consumo de massas que é um novo potencial de crescimento. É uma conquista irreversível. E a educação é uma das grandes questões dessa emergência social. A família que recebia o Bolsa Família quer ver hoje o filho passando no Enem, entrando no 1,3 milhão de bolsas do Prouni. E quem saiu do Luz para Todos agora quer banda larga e computador.

O governo não está sacrificando muito a Petrobrás em nome de políticas públicas?

A Petrobrás deu um salto extraordinário nessa década.

Mas agora está em situação bem difícil.

A Petrobrás está entre grandes empresas de petróleo do mundo e tem um futuro muito promissor. Acho que, no segundo semestre, vamos ter um aumento de produção de petróleo muito grande. Todos os ajustes estão sendo feitos e os resultados vão aparecer logo, de forma extraordinária, muito antes das urnas serem abertas, em 2014. Petrobrás é uma pauta que interessa ao governo debater (com a oposição). Vamos avaliar qual é o desdobramento da empresa.

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), tem criticado a gestão do governo Dilma, que não seria tão eficiente assim. Ele diz que pode ser o gerente mais eficiente, o pós-Dilma. O que o sr. acha dessa avaliação?

A presidenta Dilma é uma gestora extraordinária e parte dos resultados de muitos governos estaduais se deve a essa capacidade de gestão.

Em Pernambuco também?

Pernambuco? A parceria com o governo federal trouxe para Pernambuco R$ 60 bilhões de investimento. Olhe a duplicação da rodovia, a Transnordestina, o estaleiro Atlântico, a reforma do Porto de Suape, a indústria da Fiat, a refinaria e o pólo petroquímico, a fábrica de hemoderivados, para não falar de outras políticas, como Minha Casa, Minha Vida. Só no MEC foram 900 ônibus para transporte rural em Pernambuco, no ano passado. A presidenta acaba de voltar lá, com todo esse pacote da seca, anunciando mais R$ 2,5 bilhões de investimentos. Essa atitude do governo federal é que fez o Nordeste crescer acima do Brasil, pela primeira vez na história, diminuindo as assimetrias regionais. O Nordeste tem 27% da população e 13% do PIB. Parte do êxito desses governos regionais é por causa dessa parceria. Um país complexo como o Brasil precisa de aliança. A coalizão é necessária para governar.

Então o governador Eduardo Campos, possível adversário da presidente, está cuspindo no prato que comeu?

Não. Eu acho que ele tem todo o direito de buscar o caminho que achar mais apropriado. No começo, diziam que o PT não podia ter candidato a presidente. Em 1989, todo mundo dizia que a gente não tinha a menor chance. Fomos para o segundo turno (contra Fernando Collor) e quase ganhamos a eleição. E o Miguel Arraes (avô de Eduardo Campos) foi uma das lideranças que apostou nesse projeto desde a origem. Eu venho dessa escola, de um tempo em que a gente sabia que era indispensável a aliança para dar sustentação a esse projeto popular.

O PMDB está garantido como vice na chapa da presidente Dilma, em 2014, ou é possível um acordo para que Eduardo Campos entre nessa vaga e desista de se candidatar agora?

Não sou eu que vou tratar desse assunto. O que posso dizer é que Michel Temer é um grande vice. Nós reconhecemos hoje o papel que o PMDB trouxe para a governabilidade e o compromisso que tem hoje com o governo Dilma. Isso se estende ao PP, PR, PC do B, PDT, ao próprio PSB e também ao PSD (de Gilberto Kassab), que deve fazer parte desse projeto. Esse é o reconhecimento dos aliados, do caminho que o Brasil está trilhando, de respeito internacional, de estabilidade, de inclusão social, de distribuição de renda. Em time que está ganhando a gente não mexe.

O sr. tem feito a articulação política do governo e negociado com os partidos os palanques para a eleição de 2014. Na Esplanada há pelo menos outros três ministros de olho nessa vaga. O sr. está disposto a concorrer ao governo paulista ou tem outros planos?

Acho excelente que São Paulo tenha tantos nomes competentes. Eu não estou discutindo candidatura em São Paulo.

Ah, ministro...

Eu não estou. Se quiser pegar minha agenda, eu te mostro. Gostaria de estar fazendo muito mais por São Paulo. Nessas articulações políticas eu tenho, de fato, participado ativamente. Fui deputado por dois mandatos, fui senador, líder do governo e sei das dificuldades para construir a maioria. Candidatura não está no meu radar nem no meu calendário. Na vida pública, quem tem tempo não tem pressa. Eu tenho uma grande questão na minha vida: reeleger a presidenta Dilma e dar continuidade a esse projeto. O resto é absolutamente derivado desse compromisso. Eu jogo para o time.

O ex-presidente Lula também disse isso. O sr. acha possível o PT abrir mão da cabeça de chapa em São Paulo em nome desse projeto?

O PT tem todas as condições de liderar uma disputa em São Paulo. Agora, o partido tem de estar aberto a construir um caminho com os aliados. Foi fundamental para Fernando Haddad (prefeito de São Paulo) essa aliança no segundo turno.

Esse foi um dos temas da conversa, na quarta-feira, entre a presidente Dilma, o senhor e o ex-presidente Lula, entre outros petistas ?

Sobre conversa da presidenta Dilma com o presidente Lula só eles falam.  

Quem assusta mais o governo para a campanha eleitoral de 2014: o senador Aécio Neves (PSDB), o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), ou a ex-senadora Marina Silva (Rede)?

A gente, em campanha, não tem que ficar escolhendo adversário. Temos de continuar trabalhando com seriedade e acho que colheremos excelentes resultados.  

Como se justifica a devolução de ministérios como os do Transportes e do Trabalho a setores do PR e do PDT que foram excluídos da Esplanada na faxina ética de 2011? Vale tudo pelo apoio na reeleição?

O PDT nunca saiu do Ministério do Trabalho.  

Um grupo do PDT tinha saído.

O ministro Brizola Neto (que deixou a pasta recentemente) é liderança nova que tem grande futuro político, carrega uma bela herança familiar e pessoal, deu contribuições muito importantes. Só que ele não conseguiu consolidar o apoio da bancada e do partido. O novo ministro, Manoel Dias, é uma liderança histórica do PDT.  

É do grupo do ex-ministro Lupi, que havia saído com a "faxina" ética.

Ele é reconhecido pela bancada e pelo partido como uma liderança que expressa a maioria do partido. No caso do PR, o ex-ministro Paulo Sérgio Passos, que conseguiu avanços, depois de todas aquelas dificuldades que não foram poucas, vai ser indicado para a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). E o César Borges era vice-presidente do Banco do Brasil e fez um excelente trabalho. São mudanças compatíveis com os valores que a presidente sempre defendeu.  

Depois do julgamento do mensalão, o PT precisa fazer uma autocrítica de suas práticas e métodos?

Acho que o presidente Lula respondeu isso por meio de uma política institucional muito importante. Ou a gente faz uma reforma política e muda a forma de financiamento de campanha ou... Esse é um problema que não é um problema do PT. É um problema que atinge as principais agendas partidárias do País. Qual é o custo da democracia e como se financia esse custo? A nossa proposta é financiamento público exclusivo e absolutamente terminativo em relação a isso. Se fizermos uma reforma política vamos dar um salto muito grande. Lula foi muito feliz pela veemência com que está defendendo essa solução sistêmica.

 

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