O piano do aliado e o telefonema do padrinho

Haddad garante apoio do PMDB com Chalita tocando Tchaikovsky; Lula emociona pupilo

Bruno Lupion, de O Estado de S. Paulo,

27 de outubro de 2012 | 18h07

Por um segundo, a emoção roubou o ar e a voz de Fernando Haddad na noite de 7 de outubro. Era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu ídolo e mentor político, telefonando para lhe dar os parabéns pela tarefa cumprida, em meio à algazarra de petistas que festejavam o resultado do 1.º turno.

A cena, passada e repassada no imaginário de Haddad, se tornava real. Dois anos antes, Lula o havia escolhido para disputar o comando da maior cidade do País contra a pretensão da atual ministra da Cultura, Marta Suplicy, e de outros caciques no partido.

Sua primeira plenária como pré-candidato, em outubro do ano passado, havia sido um desastre. Haddad fez um discurso difícil e sem jogo de cintura a militantes do diretório de São Miguel Paulista, na zona leste. Ao término, o deputado federal Jilmar Tatto (PT), também pré-candidato, deu um tapinha nas suas costas e provocou: “Lula te colocou numa enrascada, hein?”

O ex-ministro da Educação compara seu trajeto dos 3% de intenção de voto aos 29% colhidos no 1.º turno a uma epopeia. Do alto do Hotel Pestana, na região da Avenida Paulista, onde soube do resultado das urnas, o petista divisava à sua frente mais 20 dias de dura campanha contra o experiente candidato do PSDB, José Serra.

Haddad não perdeu tempo e, na mesma noite, agendou um encontro com o candidato derrotado do PMDB, Gabriel Chalita. Ambos mantinham contato desde que Chalita era secretário de Educação do Estado de São Paulo, no governo Geraldo Alckmin (PSDB), e participavam do Conselho Nacional de Secretários de Educação.

Com Michel Temer (PMDB) na vice-presidência de Dilma Rousseff, a aproximação avançou a passos largos e foi selada quatro dias depois. A encarnação da aliança, porém, ocorreu na semana seguinte, em um jantar oferecido a Chalita pela família Haddad em seu apartamento, no Paraíso.

Após degustar um linguado grelhado com legumes e ravióli de abóbora e sálvia, Chalita sentou-se ao piano instalado na sala e tocou o Lago dos Cisnes, do compositor Piotr Tchaikovsky. Em seguida, Frederico, filho de Haddad, retribuiu com Capricho Árabe, de Francisco Tárrega, ao violão.

Com o candidato derrotado do PRB, Celso Russomanno, não houve música. Magoado com as críticas de Haddad à sua proposta de tarifa proporcional de ônibus, o apresentador de TV, em um telefonema protocolar ao petista, deu-lhe os parabéns pela ida ao 2.º turno e, a partir daí, a negociação foi conduzida pelos diretórios nacionais dos partidos.

Russomanno cobrou um preço alto pelo apoio - queria o Ministério das Cidades. Alto demais para Haddad, que não via nele uma peça-chave para reconquistar os moradores tradicionalmente petistas da periferia que tinham votado “10” nas urnas. Sem acordo para o 2.º turno, o PT conseguiu evitar, com tratativas em Brasília, que Russomanno caísse no colo da campanha tucana. O nome do PRB se declarou neutro e Haddad deflagrou uma intensa agenda eleitoral em busca daqueles votos.

Em um mesmo fim de semana, a campanha petista chegou a organizar quatro carreatas e oito minicomícios. Haddad não dava conta de todos os eventos, mas tinha o reforço de cinco titulares da Esplanada dos Ministérios, dos quais havia sido colega nos governos Lula e Dilma. Aloizio Mercadante (Educação), Marta Suplicy (Cultura), José Eduardo Cardozo (Justiça), Miriam Belchior (Planejamento) e Alexandre Padilha (Saúde) foram escalados para mostrar a disposição da presidente em inundar a capital paulista com recursos federais se Haddad for eleito.

A estreia da turma do ministério na campanha não poderia ter sido mais paulistana. Em um feriado de clima gélido e garoa fina, foram ao Shopping Aricanduva, na zona leste, e passearam pelos corredores do centro de compras. No dia seguinte, se dividiram entre M’Boi Mirim e Campo Limpo (zona sul), Brasilândia e Taipas (zona norte) e Sapopemba, São Mateus, São Miguel Paulista e Itaim Paulista (zona leste). A experiência serviu de ensaio da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes em 2014, para a qual Mercadante, Marta e Padilha são cotados.

Haddad sabia, contudo, que eventos de rua não eram suficientes e que precisava melhorar seu desempenho nos debates televisivos, onde é novato. No 2.º turno, ele e Serra ficariam cara a cara na arena eletrônica.

Além dos treinos com o marqueteiro João Santana, a chave para Haddad se soltar e falar com energia foi preparar com esmero o ambiente que antecede o debate - o petista é alérgico a ar-condicionado e a aromas fortes. O mau resultado no debate da TV Cultura no 1.º turno foi atribuído, em parte, à combinação de ar frio, cheiro de tinta fresca e cortinas empoeiradas no seu camarote.

Desde então, sua equipe negociou espaços mais ventilados para Haddad aguardar o momento de entrar em cena. No encontro do SBT, o petista foi colocado em uma sala no meio da redação e recebeu gengibre para a garganta. Termos semelhantes foram combinados no programa da Globo.

Para Haddad, os três debates foram os momentos mais desgastantes do 2.º turno. Família e auxiliares diretos dizem que o petista não leva as críticas de Serra para o lado pessoal, mas se irrita com as insinuações do tucano sobre sua conduta ética, que tentam ligá-lo ao julgamento do mensalão.

A gota d’água ocorreu no debate do SBT, quando Serra lembrou que a “alta cúpula” do PT havia sido condenada pelo Supremo Tribunal Federal e atacou: “Vão querer repetir mensalão aqui?” O semblante calmo caiu, o dedo indicador ergueu-se e o petista reagiu com um “alto lá!”. “Seu desrespeito chega às raias da insanidade”, afirmou.

Ana Estela, mulher de Haddad, relata que o candidato tem a exata medida da responsabilidade de comandar a maior prefeitura do País e afirma que o mais difícil, para ele, foi disputar a sua primeira eleição. “A gestão, o que vem depois, para ele é o mais fácil”, diz. Se sair vitorioso das urnas hoje, 11,4 milhões de habitantes da metrópole cobrarão.

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