O nome do jogo

Os movimentos de Gilberto Kassab na preparação da disputa pela Prefeitura de São Paulo parecem confusos e contraditórios, mas não há nada mais organizado e coerente da perspectiva de alguém cujo objetivo principal é consolidar a posição de peça importante no jogo da política.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h06

E o nome do jogo dele é sobreviver ao fim do mandato de prefeito e chegar ao governo de São Paulo. Seja em 2014 ou 2018.

Kassab nunca pretendeu consertar o mundo. Quando explicitou a indefinição ideológica do PSD, deixou bem claro que ao fundar um novo partido sua intenção não seria liderar processos de aperfeiçoamento do sistema partidário ou tornar-se um pregador desta ou daquela corrente de pensamento.

Trata-se de um pragmático assumido. Marca a meta e sai ao alcance dela. Quando quis se livrar do DEM em derrocada, foi em busca de fusões com outros partidos: primeiro o PSB, depois o PMDB.

Não deu certo. Criou, então, a própria legenda. Arregimentou correligionários insatisfeitos nos respectivos partidos, avisou aos novos navegantes que, ali, fidelidade partidária seria regra, apresentou seus serviços de sublegenda aos governadores de todos os Estados, formou fornida bancada na Câmara, cumpriu as exigências legais e registrou o PSD.

Como aliado, o partido disputará prefeituras em boa parte do País, mas é em São Paulo que Gilberto Kassab investe em seu destino.

Como dito acima, a ideia é construir um caminho que leve ao Palácio dos Bandeirantes. O mais curto seria agora, na disputa municipal, apresentar a candidatura de Guilherme Afif, vice do governador Geraldo Alckmin, em composição com um nome indicado pelo PSDB.

Em troca, apoiaria Alckmin para a reeleição em 2014 e, quem sabe, ocupando a vaga de vice. Como ocorreu com José Serra para a Prefeitura de São Paulo: assumiu o mandato no meio e depois se elegeu com a ajuda da força da máquina.

Mas, então, o que faz o prefeito oferecer-se para uma aliança com o PT nessa mesma disputa à Prefeitura? Um partido de oposição a ele que, no caso de uma coalizão, perderia o discurso junto ao eleitorado e, em tese, não teria nada a ganhar com isso.

Na visão dos tucanos, trata-se de mero instrumento de pressão para forçar a aliança com o PSDB nos termos que interessam a Kassab. Ou seja, o PSD na cabeça de chapa.

Na interpretação de correligionários do prefeito, ele teria a oportunidade de firmar "algum tipo" de acordo futuro que o aproximasse da cadeira de governador de São Paulo, em troca de apoio, um caixa cheio e o aprofundamento das agruras na seara do PSDB.

Difícil? Dificílimo, praticamente impossível. Inclusive porque a cadeira que Kassab tanto ambiciona é o sonho de consumo do PT.

Mas, como não se esclarece o significado exato da expressão "algum tipo" quando se fala na hipótese de acerto futuro com o PT e, considerando que Kassab é um pragmático que abriu conversação com Lula, outro "expert" no ramo da obstinação eleitoral, nunca se sabe.

De onde se conclui que, não obstante pareçam confusos e contraditórios, os movimentos do prefeito de São Paulo são o que há de mais organizado e coerente no jogo da política.

Aquela que se faz na base da conveniência, bem entendido.

Boa vista. Ao dizer que a presidente Dilma "subdimensiona" o tamanho e a importância do PMDB na divisão de poder no governo, o presidente do partido, senador Valdir Raupp, expressa uma insatisfação coletiva.

Real, mas que na avaliação da cúpula ainda não é o momento de ser exposta publicamente.

Raupp, na verdade, foi ameno considerando que o que se diz no PMDB é que a única vantagem do partido é ter "uma vista privilegiada para o lago Paranoá", numa referência ao Palácio do Jaburu onde mora o vice-presidente Michel Temer.

A avaliação é a de que a unidade do partido não trouxe os benefícios esperados, pois fez do PMDB em relação ao PT uma espécie de DEM do PSDB.

Neste aspecto, interpreta-se, a divisão interna com um grupo francamente oposicionista e outro jogando na tensão oposicionista, era mais vantajosa.

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