Imagem Dora Kramer
Colunista
Dora Kramer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O nome da crise

Dizem que o impossível acontece. Nem sempre, porém. Na política, por exemplo, a perspectiva da perda do poder é um limite intransponível. Cria uma impossibilidade.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h04

Na essência disso é que está o nó dessa crise entre PT e PMDB, muito mais difícil de desatar do que fazem crer os desenhistas de cenários onde de um lado se põe a presidente Dilma Rousseff resistindo e de outro o partido do vice-presidente Michel Temer insistindo em ocupar mais cargos na administração federal.

Fosse assim tão simples ela já teria resolvido. Com a mesma falta de cerimônia com que fechou os olhos para as denúncias que se acumulam em relação à turma do ex-ministro Carlos Lupi na pasta do Trabalho, em troca dos minutos do PDT no horário eleitoral.

Não se trata de entregar este ou aquele ministério ao PMDB, de isolar o líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha, ou de conseguir que o ex-presidente Luiz Inácio da Silva passe uma boa conversa nos parceiros de aliança.

O buraco está literalmente mais embaixo, nos Estados. A raiz das desavenças é a partilha do poder real, vale dizer aquele resultante das urnas. Sem perspectiva (nem projeto) de candidatura presidencial, o PMDB vive de eleger boas bancadas para o Congresso.

Para isso, precisa se sair bem nas eleições estaduais ou se enfraquece. O PT ao mesmo tempo quer se fortalecer, tornar-se hegemônico, ficar cada vez mais independente do parceiro e tirá-lo desse lugar privilegiado no Parlamento, onde hoje preside as duas Casas.

Nessa altura um ministério a mais ou a menos não resolve o problema. Em relação a Eduardo Cunha, o Palácio do Planalto deveria saber muito bem que não é exceção à regra. Só chegou a líder e foi reconduzido ao cargo porque teve apoio da bancada na Câmara e da direção do partido. Ou seja, ele não é causa, é consequência.

Quanto a Lula, objetivamente é restrita sua margem para manobras. Pelo simples motivo de que não é um árbitro isento. Ele tem lado, o projeto dele é o do PT, de Dilma.

Como pedir a seu partido que abra mão da disputa do poder em prol do parceiro? Ao mesmo tempo, como não reconhecer o direito do PMDB de almejar os mesmos espaços?

Exemplo didático é o do Rio de Janeiro. Amigo e aliado do governador Sérgio Cabral, nem por isso Lula teve como fazer (nem razão para tal) o PT desistir da candidatura própria ao governo do Estado. Seria convidar o partido à inanição do segundo maior colégio eleitoral. Assim será País afora. Ambos com suas razões, cada um com seu cada qual.

Pé atrás. O PSDB está pesando os prós e os contras de se juntar ao arrastão liderado pelo PMDB para tentar derrotar o governo em duas questões: o Marco Civil da Internet e a criação de uma comissão para investigar, na Holanda, denúncias de corrupção na Petrobrás. Segundo o deputado tucano Duarte Nogueira, o receio é que, no fim das contas, os pemedebistas se acertem com o Palácio do Planalto e deixem a oposição falando sozinha.

Pirão primeiro. O governo reviu os valores pagos aos médicos cubanos e aumentou em 90% o repasse destinado a eles. A ideia não é resolver o problema dos profissionais, mas evitar danos à bandeira eleitoral do programa Mais Médicos.

Se a preocupação fosse com as condições trabalhistas e o custo de vida dos cubanos que recebiam algo em torno de R$ 1 mil por mês no Brasil, os contratos não teriam sido firmados nos termos originais.

Mesmo com o aumento, os médicos exportados pelos irmãos Castro continuarão recebendo cerca de 30% do que ganham os colegas de outras nacionalidades, cujos governos não cobram pelo aluguel dos serviços nem cerceiam o direito de ir e vir de seus cidadãos em solo estrangeiro (onde são aceitas as regras da ditadura) enquanto "em casa" mantém suas famílias como reféns.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.