Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

O ‘não’ das ruas mede sua força nas urnas

Protestos de 2013 cobram novos rumos aos políticos, mas falta saber se terão apoio do eleitorado

Roldão Arruda, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2014 | 19h54

Há quase duas décadas os dois principais partidos do País, PSDB e PT, se arvoram como autores de grandes mudanças no País. Nas campanhas eleitorais até disputam entre eles o título de campeão das transformações. Em junho do ano passado, porém, petistas e tucanos, assim como líderes de todos os outros partidos, do governo, das centrais sindicais, movimentos sociais, associações, sociólogos, institutos de pesquisa, enfim, tudo aquilo que tradicionalmente pensa representar ou entender o povo brasileiro, foi surpreendido com uma inesperada e descomunal manifestação pública. Por todo o País, centenas de milhares de pessoas foram às ruas manifestar seu descontentamento com o atual estado de coisas no País - do preço do bilhete do metrô à falta de representatividade dos políticos, numa pauta ciclópica que também incluía o desconforto com a corrupção e a falta de respeito a direitos civis.

De maneira geral, foi uma manifestação de profundo mal estar. Como se as ruas dissessem que o País mudou sim, mas não na amplitude nem na velocidade necessárias e desejadas.

De lá para cá se produziram centenas de estudos tentando explicar e entender o que houve. Agora, com a campanha eleitoral, procura-se avaliar que efeito as manifestações podem ter no resultado das eleições. Alguns candidatos estariam mais aptos que outros a galvanizar o voto das ruas?

Em entrevista ao Estado, o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, que acaba de relançar o livro Cidadania no Brasil - O Longo Caminho, um clássico da sociologia brasileira, no qual incluiu um prefácio dedicado especialmente à análise do que ocorreu em 2013, observou que nunca na história do País se viu um movimento de massas como aquele, o que torna mais difícil sua análise. “Pelo menos cinco características o tornaram inédito”, disse ele. “Foram a imprevisibilidade, ausência de lideranças claras, multifocalidade, vinculação às redes sociais e postura totalmente anti-establishment.”

Ao comentar a rejeição dos manifestantes a bandeiras de partidos, de qualquer coloração ideológica, o historiador disse tratar-se de um “sintoma de insatisfação generalizada com o funcionamento de nossa democracia representativa, de suas instituições e operadores”. Mais especificamente sobre o impacto na eleição desse ano, afirmou que ele existe e está claro na rápida ascensão de Marina Silva, do PSB.

“É a candidata mais identificável, com ou sem razão, com a oposição ‘a tudo isso que está aí’”, assinalou “A queda simultânea das intenções de abstenção e voto nulo mostra que houve migração de desencantados para a candidatura dela.

Estorvo. Paralelamente, porém, Carvalho observou que Marina tem problemas para assimilar de maneira ampla o que foi dito nas ruas. Um exemplo seria a dificuldade dele com a defesa dos direitos de minorias sexuais, como gays e lésbicas. “ São direitos novos que vão surgindo e adquirindo legitimidade. É um reforço da liberdade individual, valor básico da modernidade ocidental. Paradoxalmente, é também um estorvo para Marina e suas convicções evangélicas”, afirmou.

O sociólogo e professor Wagner Iglecias, da Universidade de São Paulo (USP), tem opinião diferente. Na avaliação dele, as manifestações de junho de 2013 não estão tendo impacto na eleição deste ano. “Observando os resultados das pesquisas de intenção de voto para a Presidência e os governos estaduais, não vejo resultados residuais. A presidente Dilma Rousseff lidera a corrida para a Presidência, no Rio se destacam o Anthony Garotinho e o Pezão, que é o candidato do Sérgio Cabral, aquele mesmo que teve um acampamento dos manifestantes diante de sua casa. Em São Paulo aparece o Alckmin. São figuras tradicionais da política que vão se reeleger mais uma vez”, disse. “Há um descasamento entre o que ocorreu nas ruas e o que a população manifesta nas pesquisas. Esperava-se uma renovação maior dos nomes nas urnas, mas, do que se viu até agora nas pesquisas, não vai haver o grande sopro de renovação, de oxigênio, que se esperava.”

Marina Silva, na avaliação dele, captura parte da insatisfação manifestada naqueles protestos, mas não totalmente. “Ela também conta um voto evangélico, conservador, que provavelmente não estava protestando nas ruas em 2013.”

Uma das hipóteses apontadas pelo sociólogo para essa falta de sintonia está nos políticos, segundo Iglecias: “Tudo indica que nenhum político conseguiu ainda garrar as bandeiras das ruas, ninguém da classe política conseguiu vocalizar inteiramente o que os manifestantes queriam.”

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