Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

O livro esquecido de Ciro Gomes

Em entrevista, o candidato trabalhista nas eleições 2018 revelou que entrou na política de maneira irregular

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

Na mais longa entrevista que já concedeu até hoje – em 1994, publicada no livro No país dos conflitos, esgotado –, o hoje presidenciável Ciro Gomes, do PDT, contou que sua primeira candidatura a deputado estadual, em 1982, pelo PDS (ex-Arena), desrespeitou o prazo de filiação partidária. “No dia seguinte (ao aceitar a proposta do pai, prefeito de Sobral, para ser candidato) lembrei que eu não era filiado a partido nenhum e que havia passado já o prazo de filiação. Mas deram lá um jeito no assunto, conforme os costumes da terra, e a minha filiação foi feita”, relatou Ciro Gomes aos jornalistas Ancelmo Gois, Geneton Moraes Neto, Marcelo Pontes, Miriam Leitão e Suely Caldas

A entrevista, uma das mais sinceras e reveladoras sobre si próprio, foi concedida em 8 de outubro de 1994, no hotel Caesar Park, zona sul do Rio de Janeiro. O ex-governador do Ceará, aos 37 anos, era ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco. Falou à vontade sobre sua carreira política – deputado, prefeito, governador, ministro – e também sobre a vida pessoal. Sempre a seu estilo. 

Sobre a primeira campanha a deputado estadual, contou, por exemplo, que foi o mais votado em Sobral, onde o pai era prefeito, mas omitiu que não conseguiu se eleger: com 17.841 votos, amargou uma suplência.

À época, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Ceará informou ao Estado, por meio da Lei de Acesso à Informação, Ciro Ferreira Gomes, de 23 anos, declarou como bens “um automóvel Chevrolet Opala 76 (Cr$ 60 mil, valor da época) e 50 cabeças de gado ‘vacum’ (Cr$ 200.000,00, idem)”. Saiu da suplência porque o governador Gonzaga Motta, do PDS, chamou alguns eleitos para seu secretariado, abrindo a vaga.

Ancelmo Gois registrou, no livro, da editora Revan, que o entrevistado “tinha um estilo meio cangaceiro de fazer política”. Míriam Leitão observou que estava no mundo “como quem se dispõe num ringue”, disposto “a matar e esquartejar”. A uma pergunta de Miriam Leitão, Ciro Gomes respondeu sobre o futuro: “Se você dissesse que há 20 brasileiros que podem vir a ser presidente da República, eu acho que seria um dos 20. Em que situação? As pessoas querendo que eu seja. Fora disso, não quero”.

Suely Caldas chamou a atenção, em suas observações, para a revelação do entrevistado sobre a ilegalidade eleitoral de sua primeira candidatura.

Metralhadora. Ciro Gomes já era, então, a metralhadora giratória de sempre. “Com o PMDB (hoje MDB) eu não ia nem para o céu”, já dizia, por exemplo, entre outros ataques a caciques deste partido. Sobre a vida pessoal, contou de suas preocupações sobre os filhos, então crianças, virem a usar drogas na adolescência, como de fato aconteceu com um de seus três filhos, como já público.

“Eu não gostaria que os meus filhos usassem drogas, mas compreenderei se usarem”, afirmou. “Nem maconha?”, perguntou Miriam Leitão. “Nenhuma. Nem bebida”. Revelou, então, que bebia muito na adolescência: “Com 14 anos eu tomava porres homéricos, cachaça, uma coisa de louco, de ficar bêbado por completo. Hoje, tenho horror a ficar tonto”.

O livro Ciro Gomes – No país dos conflitos não está encontrável nos sebos online, como o Estante Virtual, que reúne centenas de sebos espalhados pelo País. Até a quarta-feira, 15, os sites de busca, como o Google, não registravam nenhum exemplar à venda. O Estado consultou o livro na biblioteca do Senado Federal.

Procurado, o candidato Ciro Gomes não deu retorno aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem. 

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