'O fogo amigo atingiu o ápice', diz ex-marqueteiro da campanha de Lula

Crise na comunicação derruba Augusto Fonseca; favorito para vaga é Sidônio Palmeira

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 16h48
Atualizado 21 de abril de 2022 | 23h48

Caro leitor,

Horas antes de ser dispensado como marqueteiro da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto, o jornalista Augusto Fonseca reagiu ao  “fogo amigo” amigo no PT. Fonseca estava no centro de uma crise envolvendo a disputa pelo comando da comunicação da equipe de Lula e chamou de “conversa mole” as acusações de que os comerciais do PT, levados ao ar nos últimos dias, exibiam um Lula protocolar, sem transmitir mensagem de esperança.

“O fogo amigo atingiu o ápice e estamos vivos”, disse ele ao Estadão, bem antes de ser comunicado da decisão da cúpula do PT de substituí-lo. O mais cotado para o lugar de Fonseca é Sidônio Palmeira, responsável por programas de TV de Fernando Haddad em 2018, quando o ex-prefeito concorreu à Presidência. Sidônio é amigo do senador Jaques Wagner, que entrará na coordenação do comitê de Lula.

Fonseca admitia enfrentar dificuldades, mas não planejava deixar a campanha, tanto que, em tom descontraído, afirmava já estar respirando “sem ajuda de aparelhos”. O marqueteiro, porém, parecia magoado. “Primeiro assassinaram nossa reputação, dizendo que somos incompetentes, que as inserções do PT estavam mal feitas, sem emoção. É um absurdo. Conversa mole”, retrucou, ao ser questionado sobre as queixas referentes ao programa de TV do partido.

Na tentativa de se defender das críticas, Fonseca contou que Lula havia ficado “emocionado” com um dos comerciais sob sua responsabilidade, exibidos na TV. A propaganda mostrava que uma mulher conseguira entrar na faculdade aos 54 anos, graças ao Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e à política de cotas.

A saída de Fonseca enfraquece Franklin Martins, que comanda a comunicação da campanha e está em rota de colisão com o PT.  O marqueteiro havia sido bancado por Franklin, que não gostou da solução encontrada para o impasse. Agora, é possível que ele também deixe a equipe.

Lula, porém, pediu para Franklin ficar. O jornalista foi ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) no segundo governo do petista, de 2007 a 2010. Cotado para a vaga de Fonseca, Sidônio é diretor da agência Leiaute, em Salvador, e já comandou as campanhas de Jaques Wagner e Rui Costa. Tudo indica que trabalhará em parceria com Raul Rabelo, que é seu sócio.  

Desde meados do mês passado, quando o Estadão revelou o embate pelos rumos da campanha, Franklin não fala com o secretário de Comunicação do PT, Jilmar Tatto.

Por causa desses atritos, está suspenso até mesmo o podcast para evangélicos que o PT lançaria em março, protagonizado pelo pastor Paulo Marcelo. A estratégia foi traçada para atrair fiéis mais jovens e a “base” das igrejas evangélicas na disputa de votos com o presidente Jair Bolsonaro, que, segundo as pesquisas, conta com o apoio da maioria dos pentecostais. O plano não saiu do papel até hoje porque esbarrou no confronto entre Tatto e Franklin.

Integrantes do núcleo da campanha também observam que Lula tem sido mal orientado para entrevistas. O argumento é o de que ele escorregou em “casca de banana” e acabou “ajudando” Bolsonaro ao defender o aborto nesse momento. Criticado, o ex-presidente foi obrigado a se corrigir e destacou que é contra a interrupção da gravidez. Afirmou, porém, que se trata de uma questão de saúde pública, para a qual é necessário atendimento no SUS.

Dono da MPB Estratégia & Criação , Fonseca também foi alvo de ataques pelo comercial em que Lula aparecia dizendo “Se a gente quiser, a gente pode”, interpretado no PT como uma cópia do slogan “Yes, we can”, da campanha de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

“Eu acho isso uma bobagem. Pode acreditar ou não, mas não houve nenhuma referência à campanha do Obama. Na verdade, o próprio Lula disse a frase quando estava gravando e gostou! Ninguém pensou em copiar nada!”, observou Fonseca.

O preço cobrado pela agência MPB, na casa de R$ 45 milhões, foi citado pelo PT para justificar a dispensa do marqueteiro. Em nota, o partido informou que, “por razões administrativas e financeiras, não foi possível consolidar a contratação da produtora MPB para participar da campanha eleitoral deste ano”. Na prática, porém, o que pesou para a troca do marqueteiro foi a queda de braço no comitê de Lula. Até mesmo a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, avaliava que era preciso fazer mudanças.

Gleisi também enfrenta muitas críticas no PT, mas conta com o apoio de Lula, assim como Franklin. Tatto e seu grupo, no entanto, pedem a cabeça do coordenador de comunicação e dizem que não adianta trocar Fonseca se o “chefe” continuar no cargo. Até agora, Lula resiste a rifar o antigo aliado. E parece disposto a enquadrar o PT. 

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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