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O eleitorado cinza

Entre antipetistas/bolsonaristas e lulistas há metade do eleitorado, que definirá o jogo

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2018 | 05h00

Existe um elemento ainda em grande parte inescrutável nesta eleição de 2018: o eleitor. Até aqui, foi possível conhecer os dois extremos desse contingente. De um lado, aqueles que se lembram do governo Lula com saudosismo, porque achavam que sua vida estava melhor. Nesse grupo estão os petistas ideológicos, mas não só. De outro, os antipetistas empedernidos. Mas entre o preto e o branco há toda a paleta de cores. E aí vai se definir a eleição.

Ouvi de um pernambucano uma frase que me ajudou a entender um pouco a resiliência de Lula mesmo preso, mesmo após o petrolão, mesmo após o impeachment de sua escolhida Dilma Rousseff. “As pessoas estão escovando os dentes com água do São Francisco no sertão da Paraíba. Para o nordestino, isso é a realização da profecia de Conselheiro”, me disse esse observador, que não é petista, aliás.

É uma dimensão difícil de alcançar por nós, jornalistas, cientistas políticos, especialistas em pesquisa urbanos, que falamos, escrevemos e analisamos a partir do Sudeste e de um conjunto de fatores – corrupção, Lava Jato, papel do Estado, aparelhamento das instituições, patrimonialismo – que nada tem a ver com algo que mistura numa só imagem altas doses de messianismo e “a vida como ela é”. Para mim foi importante esta perspectiva.

O grupo dos lulopetistas persistentes abrange também uma certa classe média urbana que ou foi contra o impeachment no primeiro momento ou se convenceu de que ele foi um erro por obra e graça de Michel Temer, que conseguiu a façanha de superar Dilma em impopularidade, não entregou a propalada recuperação econômica e se arrasta como um zumbi num fim de mandato irrelevante e melancólico.

No outro extremo do espectro do eleitorado está o antípoda desse lulista resiliente. O antipetista radical, que enxerga justamente as variáveis que listei três parágrafos atrás – corrupção, Lava Jato, papel do Estado, aparelhamento das instituições, patrimonialismo – como as razões do atraso brasileiro, e as considera obra do lulopetismo. O que de fato são. Treze anos de Lula e Dilma condenaram o País ao buraco de hoje. Inclusive legaram Temer, que os dois extremos renegam.

Esse eleitor revoltado vai de Jair Bolsonaro. Professa essa fé quase como um soco na cara. Manifestações como o autoritário “é melhor jair se acostumando” nada mais são do que um grito de “agora chegou nossa vez, petistas”.

Os dois extremos respondem por 46% do eleitorado que já manifesta sua intenção em pesquisas. Há, portanto, metade do eleitorado cuja opinião é matizada, não se encaixa nos polos.

Na hora do vamos ver esse contingente vai se alinhar segundo a divisão levada em conta pelos partidos, entre direita e esquerda? Ou no pós-Lava Jato essa decisão será mais entre candidatos do sistema (ou da velha política) e os antissistema (ou que pregam o “novo”)?

A presença forte do PT nas pesquisas parece apontar para a primeira hipótese – na qual aposta todas as fichas Geraldo Alckmin (PSDB), que acredita que, se assim for, caberá a ele a outra vaga no segundo turno, contra o candidato petista, repetindo 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. A cristalização do voto em Bolsonaro e também o recall duradouro de Marina Silva, no entanto, parecem mostrar que a busca por um candidato antissistema pode não ser apenas um “modismo” da Lava Jato e das redes sociais. E, neste caso, estaríamos diante de uma ruptura real de paradigmas do que foram as últimas eleições.

Só o início “oficial” da campanha, com a propaganda da TV na rua, a cobertura mais massiva da imprensa, os debates e os palanques finalmente formados responderão para onde vai esse eleitor que ainda não “falou” nas pesquisas. E que enxerga o cinza, para além de branco e preto.

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