O efeito moderador de FHC

A ida do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jantar no Palácio da Alvorada, nove anos após deixar a Presidência, expôs mais uma vez o conflito interno no PSDB, polarizado entre o senador Aécio Neves e o ex-governador de São Paulo, José Serra.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h05

Fernando Henrique foi a um jantar com líderes mundiais empenhados na promoção da paz global, entre os quais está o ex-presidente americano, Jimmy Carter. Um evento, portanto, apartidário que deveria ser registrado como uma pausa entre adversários pelo bem comum.

No entanto, em política não há gestos gratuitos e o novo encontro entre FHC e a presidente Dilma Rousseff reforçou a leitura de que o ex-presidente exerce um papel moderador na oposição ao governo desde que começaram a pipocar os escândalos ministeriais, confiante de que está em curso o desmonte de uma estrutura concebida pelo ex-presidente Lula.

Importaria mais, portanto, estimular a ação saneadora de Dilma, pela exposição automática do verdadeiro adversário nas campanhas municipal e presidencial: Lula. É, porém, uma estratégia sutil demais para tucanos preocupados com 2014 num contexto em que a percepção geral é a de que ao país falta oposição.

O tom moderador de FHC encontra sintonia com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que costura sua candidatura explorando a visibilidade do mandato que falta ao seu rival José Serra. Este, com seus espaços reduzidos no partido, que até da propaganda gratuita o andou excluindo.

É daí que vem o grito do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), cobrando uma agenda de oposição, como defende o ex-governador Serra.

Oposição no governo

No quadro de anemia dos partidos de oposição, esta é muito mais percebida dentro do próprio governo, onde o fogo amigo produz vítimas entre rivais da base aliada. Mesmo quando as denúncias são levantadas exclusivamente pela imprensa, parlamentares da situação as atribuem, em algum grau, a informações de adversários que disputam espaço na estrutura de poder. O caso mais recente é o do ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, cuja queda ele próprio debitou a uma suposta ação do PT, através do ex-titular da Pasta, o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. O que faz o governo agora temer uma vingança capaz de gerar novos estragos no PT. Nesse momento, a oposição está no governo.

No twitter

É no Twitter que Serra e Aloysio Nunes compensam a redução do espaço dentro do partido promovido gradualmente por Aécio Neves (MG) com apoio do presidente Sérgio Guerra (PE). O senador cobrou a posição do PSDB sobre a questão dos royalties, código florestal, reforma política e Copa do Mundo. "Qual é a nossa posição?" - pergunta. Já Serra condenou a MP 540 que prevê o uso do FGTS para obras da Copa. "O FGTS é um patrimônio do assalariado", disse.

Mais fiscalização

O governo vai precisar ir além do Ministério dos Esportes para pôr fim à festa das ONGs vinculadas à sua base de sustentação. Elas estão em toda a parte a serviço da apropriação do orçamento público pelos partidos, a exemplo do que se verificou no caso do PC do B. O governo espera que não haja novo terremoto nos ministérios das Cidades e do Trabalho, onde também há convênios na mira do ministério Público, antes da reforma ministerial. Mário Negromonte e Carlos Lupi, respectivos titulares dessas Pastas, são dados como fora do governo em 2012. Também não pode se esgotar na transferência de convênios para as prefeituras a solução para a corrupção. O Planalto quer mais acompanhamento e fiscalização dos próprios ministérios da execução de projetos com financiamento público.

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