Beto Barata/AE - 26/02/2012
Beto Barata/AE - 26/02/2012

'O Eduardo precisa de mais chão para ser candidato', afirma Cid Gomes

Governador do CE diz que presidente do PSB é pouco conhecido e quer colega como vice de Dilma em 2014

Entrevista com

FERNANDO GALLO, ENVIADO ESPECIAL - Texto atualizado às 08h20, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h06

FORTALEZA - O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), torce para que o PSB apoie Dilma Rousseff em 2014 e avalia que uma possível candidatura de Eduardo Campos a presidente seria "precoce". Mas diz que o governador de Pernambuco teria seu apoio caso essa fosse a vontade democrática de seu partido. Entende que o PSB tem uma "base incipiente" na Câmara e no Senado e que Campos teria dificuldades de montar palanques em diversos Estados, onde há "fragilidades". Em entrevista ao Estado, Cid afirma que, sem contar Pernambuco, a população dos Estados do Nordeste não conhece Campos mais do que os demais Estados do País. Ele defende, contudo, que a vice na chapa de Dilma no ano que vem seja do neto de Miguel Arraes. Sustenta que o PSB ocupa hoje lugar "periférico" no governo federal e que o partido quer mais espaço na atual gestão.

Como o sr. avalia a possibilidade de candidatura presidencial do governador Eduardo Campos em 2014?

Parece até que eu sou contra a possível candidatura do Eduardo. Não tem nada disso. Sou amigo dele. Nunca conversei com ele tantas vezes num curto espaço de tempo. Mas a minha opinião é pública. Um projeto de uma candidatura do PSB, para esse momento, é precoce.

Por quê?

O PSB é um partido que tem seis governadores, é o segundo em governos, portanto, e é o que tem o maior número de prefeituras de capitais. Isso como destaque. Agora, temos uma base muito incipiente na Câmara, e no Senado mais ainda. E estamos no meio de um projeto. Se a gente votou na Dilma, participamos do governo dela, que tem trazido avanços pro país, e é um governo bem intencionado, que tem aceitação popular... por que agora? O natural agora é a gente apoiar a sua reeleição, mas sempre deixando claro que temos um projeto nacional. Em 2018 a gente mostra as nossas diferenças.

Isso pode eventualmente se chocar com as pretensões do Eduardo.

Nada contra o Eduardo, a quem respeito, quero bem e admiro. Para não ficar parecendo que sou quinta coluna. Não tenho a menor vocação moral e ética para ser quinta coluna. No dia em que eu estiver irremediavelmente indisposto no partido e querendo trabalhar contra o partido... Pelo contrário, quero fortalecer o partido. Acabei de ter um momento difícil na minha relação com o PT (na eleição de 2012 em Fortaleza), que faz 16 anos. Se eu achasse que o PT era o melhor para o Brasil eu era filiado ao PT. Não acho que o PT seja o melhor pro Brasil, não. A proposta do PSB é melhor. Agora, na política tem conjunturas e tem que ter estratégias. A nossa estratégia agora deveria ser nos fortalecermos, ampliarmos nossa base, principalmente no Senado. A gente pode saltar de quatro para oito ou dez senadores.

A avaliação do senhor é de que Eduardo será ou não candidato?

 

Pessoalmente acho que ele não está decidido a ser e torço para que o cenário favoreça a manutenção da nossa aliança. Isso não é nada contra o PSB, é a favor. Se ele for candidato o sr. o apoiará? Se a decisão for democrática, claro que sim. Como não vou?

 

Ele tem dito que as circunstâncias o colocaram na condição de candidato, mas que isso depende de como o PT vai conduzir esse processo. O que o sr. entende disso?

Tem muita gente interessada na candidatura dele. Gente do partido, de boa fé. Gente do partido por conta de interesse regional, o que é legítimo. Fora do partido porque são oposição ao projeto PT-PSB, embora eu não deixe de admitir que o PSB não tem centralidade nesse projeto, que a centralidade está alicerçada em PT-PMDB, e nós estamos meio periféricos. Mas ainda assim esse projeto é melhor do que o do PSDB. E tem gente que está interessada em ter uma alternativa ao cansaço dessa dicotomia PT-PSDB, de boa fé. Tem também gente que está interessada num projeto diferente que simbolize a direita, e isso me preocupa porque somos de esquerda. E tem gente na base do governo que quer que a gente fique fora porque esse espaço vai ser repartido com eles.

 

Esses últimos quem são?

 

PT, PMDB. Não é o partido formalmente, mas gente do PT, gente do PMDB, do PC do B, do PDT. É natural da política. Se sai um esse espaço será realocado. Tem muitos interesses. A dificuldade é você ver o que é legítimo, bem intencionado. Por isso acho que a declaração do Eduardo está correta. Nessa hora quem tem que se esforçar e inclusive abrir mão de espaços é o PT. Em nome de manter a Presidência da República, o PT é que tem que compreender e abrir espaços para outros partidos.

 

O PT chegou a aventar a possibilidade de abrir mão da cabeça de chapa em São Paulo para tentar tirar a vice da Dilma do PMDB e oferecê-la ao Eduardo. O PMDB bateu o pé, não quer de jeito nenhum...

 

... eu defendo isso publicamente (que Eduardo seja o vice). Demonstrações de interesse do PT têm que se fazer de várias formas. Não faz sentido a hostilidade que o PT está tendo com o PSB em várias cidades do Brasil administradas por nós.

Por exemplo?

 

Cuiabá, Fortaleza, Campinas. Passamos por um processo eleitoral em que nos dividimos, mas passou e agora tem um projeto nacional em que o interessado maior é o PT. Quem tem que abrir mão das coisas, ser generoso, ser compreensivo, benevolente, é quem está precisando. Isso é das relações humanas. O PT, se quer o apoio do PSB, tem que fazer uma radiografia e ver onde está tendo problema com o PSB e generosamente buscar superar esses problemas.

O sr. aponta para as disputas estaduais?

 

Para tudo. No ministério da Dilma. Vai dizer que o PSB está satisfeito? Nunca fomos um partido que quer cargos. Queremos centralidade. Não queremos ser um partido periférico. Queremos participar de decisões centrais. Isso muitas vezes acaba se traduzindo em participação em ministério. Mas não essencialmente é isso o que a gente está defendendo. A gente quer participar da centralidade do governo. Dos rumos, da discussão da economia.

 

E isso não está acontecendo?

 

Não. Não tá. A Dilma, todas as demandas que levei, reconheço e sou grato, (foram atendidas). Agora, não é isso o que o PSB quer. O PSB quer mais. Quer participar da centralidade da discussão. Como vamos superar esse momento preocupante da economia?

 

Na prática essa participação seria como?

 

Ouvindo, ouvindo. Extraoficialmente ou oficialmente. Vai dizer  "tá atrás de ministério". Sinceramente não. Mas é claro, se a gente tivesse pessoas em funções importantes do governo, centrais, obviamente estaria mais participante.

 

E em relação à vice da Dilma?

 

Defendo isso publicamente, que a vice seja do PSB. Nada contra o PMDB. O PSB é o partido que mais cresceu dentro da base do governo. Muito mais do que o PMDB, embora o PMDB seja um partido maior do que o PSB. Mas tudo bem, precisamos de governabilidade, não posso ser um romântico. Mas o PMDB está muito bem aquinhoado com presidência de Câmara e de Senado. Isso pode se reproduzir. Acho muito razoável que pelo nosso conhecimento, pela coesão... o PMDB é maior, mas não é coeso. Não estou criticando o PMDB, estou constatando a realidade. O PMDB do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, acho que nunca votaram no Lula e nem na Dilma. O PMDB da Bahia uma época votou, outra época não votou. Nós temos mais coesão.

Sem a vice, que espaço o sr. vê para o Eduardo a partir de 2014?

 

Essa definição só se dará em 2014.

 

A manutenção do PSB na aliança passa pela vice?

 

Não falo pelo partido. Minha opinião pessoal era a de que deveríamos manter a aliança estando juntos na reeleição da Dilma.

 

O Eduardo teria condições de concorrer a presidente sem palanques fortes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas e Bahia?

 

Isso é uma fragilidade nossa. Vai mais além. A gente tem fragilidades em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo, no Pará, no Maranhão, em Alagoas, em Goiás. no Acre. No Acre acho que não tem nem onde chegar. Era importante que o partido avançasse mais agora, formando quadros, focando no Senado e até a possibilidade de ampliação de algum governo, além da manutenção dos nossos seis. Isso tudo vai nos obrigar a arranjos.

 

O sr. concorda com a avaliação do seu irmão, ex-governador Ciro Gomes, de que o Eduardo não está preparado para concorrer à Presidência?

 

Essa coisa de preparado pode ser entendida de diversos aspectos. Preparado intelectualmente? Não acho que foi isso o que o Ciro quis dizer. Moralmente? Não acho que foi o que ele quis contestar? No sentido de ter visibilidade? Talvez tenha sido isso que o Ciro tenha falado. Visibilidade está associada a tempo de andança, e acho que foi fundamentalmente isso que o Ciro falou.

 

O quê?

 

O Brasil é muito grande e para se tornar conhecido não é tarefa fácil. A gente fica achando que por ser capa da Veja, da Época, isso torna a pessoa conhecida, mas o universo de pessoas que tem acesso formal a esse tipo de mídia é muito pequeno. Precisa muito mais do que isso para tornar uma pessoa conhecida. O Eduardo é governador e foi nesse espaço que ele teve visibilidade. Em quatro anos ele conquistou o título de melhor governador do Brasil. É claro que isso é meritório. Agora, no Ceará o Eduardo não é uma pessoa conhecida. Eu conheço aqui. O Eduardo precisa de mais chão pra isso. Sei que não é só chão, que uma campanha massifica o nome da pessoa, mas foi nesse aspecto que o Ciro quis falar. Foi feita uma pesquisa, ele ficou com 3%. Desses, 9% no Nordeste e pode ter certeza que são 70% em Pernambuco. Se Pernambuco é um quarto do Nordeste, e ele tem 70% em Pernambuco, é claro que nos outros Estados do Nordeste, como Bahia, Rio Grande do Norte, tal, ele deve ter o mesmo porcentual que tem no resto do Brasil.

 

PT e PSB romperam no ano passado em Fortaleza, Recife e Belo Horizonte, e agora podem romper também no plano nacional. Há algo mais do que as questões locais por trás disso?

 

Você não pode pegar as condições das eleições municipais como algo que se repita no cenário estadual ou na disputa nacional. Não tem nada a ver. No caso do Ceará eu tenho a consciência tranquila de que fiz o que deveria ter feito, passo a passo. Tenho uma aliança com o PT, desejo preservar e acho que quem quer preservar uma aliança não pode e não deve engolir os outros. Você deve respeitar e ser generoso. Aquilo que falei que o PT tem que ser. Eu tinha um limite, e foi dito tête-à-tête ao Lula. Desse jeito que estou te dizendo: olha, eu tenho uma aliança com o PT, quero preservar essa aliança no nível estadual e nacional, não tenho o direito de engolir espaço dos outros, a prefeitura é do PT, mas tenho um limite. Não posso apoiar uma candidatura do PT se for uma que seja identificada com a atual administração (da ex-prefeita Luizianne Lins). O presidente Lula disse: não se preocupe, meu filho. Eu resolvo isso e tal. Não deu mais notícias até hoje. Pera aí. Aí não tive opção.

 

Como está hoje a relação do PSB com o PSD, de Gilberto Kassab?

 

Lá atrás, viria ele e mais dez deputados para o PSB, além do governador de Santa Catarina, que rompeu lá com o DEM. Aí alertaram: olha, se acontece isso, os dez deputados federais ficam ameaçados de perder o mandato. Como faz? Aí os profissionais disseram pra fazer um novo partido e assim que tivesse feito, a legislação abre brecha pra isso, depois funde. Só que o que era dez virou cinquenta. Tinha muita gente inquieta, insatisfeita. Ele virou líder de um partido de 50. Como é que um líder de um partido de 50 vai se fundir a um de 32 e ser liderado? A gente sabe que o PSD não tem muita homogeneidade, não há um tema que os uno, é um conjunto de interesses regionais. Mas hoje é um partido e será um partido.

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