Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O discreto superpoder da primeira-dama

Em trabalho voluntário, mulher de Fernando Haddad articula projetos que envolvem 14 secretarias

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h09

Mulher de Fernando Haddad canaliza dinheiro de programas da União para a Prefeitura e agora investe na saúde, que será um dos principais temas da disputa pelo governo de SP

A primeira-dama Ana Estela Haddad tem despachado quase diariamente no Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. Com o apoio de duas assessoras, trabalha no quinto andar. A sala é espaçosa, com pé direito muito alto, imponente como o restante do edifício em estilo neoclássico, construído na década de 1930. Faz parte do gabinete do prefeito Fernando Haddad, que despacha a poucos metros dali, do outro lado de uma porta no corredor.

As janelas da primeira-dama se abrem para três cartões postais da cidade, o Vale do Anhangabaú, o Viaduto do Chá e a Praça do Patriarca. Desde agosto, sua tarefa tem sido coordenar o programa São Paulo Carinhosa, criado por Haddad para melhorar as condições de vida das crianças entre zero e seis anos de idade. Basicamente, é uma adaptação local do Brasil Carinhoso, programa federal que a presidente Dilma Rousseff lançou em 2012 para reforçar a transferência de recursos para famílias do Bolsa Família que têm crianças.

Ana Estela gosta de lembrar a iniciativa de Dilma. Cita frases inteiras da presidente sobre a importância da primeira infância.

Embora não tenha papel executivo, o projeto da coordenadoria é ambicioso. Articula políticas que envolvem 14 secretarias municipais, entre as quais aparecem Saúde, Habitação e Educação. Secretários se revezam por ali, convidados pela primeira-dama para discutir assuntos que variam de melhorias na merenda escolar aos efeitos do consumismo entre crianças.

Desde o começo do ano ela acompanha, as medidas que César Callegari, da Educação, vem adotando para resolver o problema da falta de vagas em creches - drama que chegou a provocar uma intervenção do Tribunal de Justiça, exigindo as vagas.

Um dos objetivos da primeira-dama é a ampliação dos programas sociais do governo federal na cidade. Analisa com secretários as áreas onde isso pode ser feito e ajuda nas articulações políticas com Brasília. Cada avanço representa a entrada de mais verbas federais.

Ela ajudou a consolidar o acordo que está sendo firmado entre a Prefeitura e o Ministério da Saúde para a implantação de uma experiência pioneira no País na área de visitas domiciliares. Prevista para o segundo semestre, é basicamente um programa no qual as equipes de agentes de saúde pública (existem cerca de 300 no município) serão direcionadas para áreas com maior incidência de crianças em situação de maior vulnerabilidade social e econômica. A estimativa é de que um milhão de pessoas será atingido pela iniciativa.

O trabalho da primeira-dama é voluntário e ela não tem horário fixo de trabalho. Sua atividade principal é na USP. Orienta estudantes de pós-graduação e doutorado na área de odontologia.

Foco. Antes do marido se eleger prefeito, em 2012, ela atuou nove anos na gestão federal. Foram sete anos no Ministério da Educação e dois na Saúde. Trabalhou com o ex-ministro Alexandre Padilha, pré-candidato ao governo de São Paulo, pelo PT - o partido de Ana Estela e de seu marido.

Foi em Brasília que ela percebeu que os programas sociais do governo federal se expandiam mais lentamente em São Paulo do que em outros centros urbanos. Até 2012 o cadastro do Bolsa Família local era o pior das capitais. Outro exemplo citado por Ana Estela é de visita domiciliares do programa Saúde da Família. Do total de famílias que poderiam ser beneficiadas, só 35% eram alcançadas. A média nacional de cobertura era de 62%.

De maneira geral, com ou sem a intervenção direta de Ana Estela, está ocorrendo um aporte maior de recursos federais. Em 2013, o total de paulistanos que recebem recursos do Bolsa Família aumentou 50% em relação a 2012. No conjunto de 243 creches que estão sendo construídas em ritmo acelerado, 72 são financiadas por Brasília.

Indagada se tais medidas não seriam para beneficiar o candidato do PT na disputa de 2014, ela responde que não. O que houve, diz, foi a mudança no foco das ações. "O PT tem um projeto político de País que está colocado desde a primeira eleição de Lula e que envolve saúde, educação, direitos humanos."

Na mesma linha, ela rebate críticas feitas ao primeiro ano do governo Haddad, que entre outros problemas, foi obrigado pela Justiça a recuar no aumento do IPTU: "Esses problemas ocorrem porque houve mudança no foco da administração. A cidade viveu um período longo no qual o espaço privado e a privatização do público foram a tônica. Agora mudou. Basicamente, o que está em jogo é isto: são dois projetos políticos diferentes para a cidade".

Sobre a sua presença numa coordenadoria que tem poderes para interferir na rotina das secretarias do município, diz: "Sempre militei nas áreas de saúde e educação. Não teria outro lado por onde contribuir".

Formada em odontologia, Ana Estela Haddad seguiu carreira acadêmica e hoje é livre-docente da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). Além da vida acadêmica, a primeira-dama já trabalhou nos ministérios da Educação e da Saúde entre os anos de 2003 e 2011.

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