Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O discreto superpoder da primeira-dama

Em trabalho voluntário, Ana Estela Haddad articula projetos que envolvem 14 secretarias da Prefeitura de SP; principal objetivo é ampliar verba federal em programas sociais da cidade

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

09 Março 2014 | 02h05

A primeira-dama Ana Estela Haddad tem despachado quase diariamente no quinto andar do Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. Sua sala espaçosa, com vista para o Vale do Anhangabaú e o Viaduto do Chá, faz parte do gabinete do prefeito Fernando Haddad (PT), que trabalha a poucos metros dali, do outro lado de uma porta no corredor.

Desde agosto, com o apoio de duas assessoras, sua tarefa tem sido coordenar o programa São Paulo Carinhosa, criado pelo prefeito para melhorar as condições de vida das crianças de até 6 anos de idade. Basicamente, é uma adaptação local do Brasil Carinhoso, programa federal que a presidente Dilma Rousseff lançou em 2012 para reforçar a transferência de recursos a beneficiários do Bolsa Família que têm crianças.

Embora não tenha papel executivo, o projeto da coordenadoria, cujo lançamento contou com a presença da ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, tem ares ambiciosos. Articula políticas que envolvem 14 secretarias municipais, entre elas Saúde, Habitação e Educação. Solícitos, secretários se revezam por ali, convidados para discutir assuntos que variam de falta de vagas em creches a redução de gordura trans no cardápio das escolas. Indo além do âmbito municipal, Ana Estela também se dedica a articular a ligação entre os projetos municipais com os do governo federal. Tende a ganhar aos poucos posição de interlocutora política no governo Haddad.

Governo, aliás, que considera inatacável, mesmo após o prefeito ter confidenciado a amigos considerar "perdido" o primeiro ano de mandato devido a sucessivas derrotas em 2013. Perguntada sobre a reação ao aumento do IPTU, no início do ano, ela responde que foi um despropósito, considerando que afetaria apenas 35% dos bairros da cidade. Para ela, trata-se de uma reação à mudança de foco que ocorreu na administração: "A cidade viveu um período longo no qual o espaço privado e a privatização do público foram a tônica. Agora mudou. O que está em jogo são dois projetos políticos diferentes para a cidade."

Um das tarefas às quais a primeira-dama se dedica é tentar ampliar os programas sociais do governo federal na cidade. Cada avanço nessa área representa, entre outras coisas, o desembarque de mais verbas federais. Recentemente ela ajudou a consolidar acordo que está sendo firmado entre a Prefeitura e o Ministério da Saúde para a implantação de uma experiência pioneira no País na área de visitas domiciliares.

Previsto para o segundo semestre, é um programa no qual as equipes de agentes de saúde pública devem ser direcionadas para áreas com maior incidência de crianças em situação de maior vulnerabilidade social e econômica. A estimativa é de atingir um milhão de pessoas com a iniciativa.

Ana Estela, que é filha de um funcionário do Banco do Brasil, diz que não gosta do título de primeira-dama, mas já o incorporou. Seu trabalho na Prefeitura é voluntário e sem horário fixo. Vai ao gabinete nos intervalos de suas atividades na USP, onde orienta estudantes de pós-graduação e doutorado na área de odontologia.

No carnaval, desfilou pela escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi por simpatizar com o tema do samba enredo, a imaginação infantil.

Brasília. Antes de o marido se eleger prefeito, em 2012, ela atuou nove anos na gestão federal, nos ministérios da Educação e da Saúde. Trabalhou durante um ano com o ex-ministro Alexandre Padilha, hoje pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que também escolheu Haddad para disputar a Prefeitura.

Foi em Brasília, conta, que teria percebido a possibilidade de expansão dos programas sociais na cidade. Ela cita o exemplo das visitas domiciliares de agentes de saúde, que estão previstas no programa federal Saúde da Família: "Ainda temos uma baixa cobertura na cidade, de 35% do que poderia ser atendido. A média nacional é de 62%."

Com ou sem a intervenção direta de Ana Estela, está ocorrendo um aporte maior de recursos federais. Em 2013, o total de paulistanos que recebem recursos do Bolsa Família aumentou 50% em relação a 2012. De 243 creches que estão em construção na cidade, 172 são financiadas por Brasília. Na saúde, também estão sendo ampliados na cidade programas como Rede Cegonha e Crack - É Possível Vencer.

Indagada se tais medidas não seriam para beneficiar o candidato do PT na disputa ao governo, ela responde que não. "O PT tem um projeto político de País que está colocado desde a primeira eleição de Lula." Sobre a sua presença em uma coordenadoria com poder para interferir em um amplo arco de secretarias, explica: "Sempre militei nas áreas de saúde e educação. Não teria outro lado por onde contribuir."

Formada em odontologia, Ana Estela Haddad seguiu carreira acadêmica e hoje é livre-docente da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). Além da vida acadêmica, a primeira-dama já trabalhou nos ministérios da Educação e da Saúde entre os anos de 2003 e 2011.

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