O dia depois

Por mais que pesquisas não sirvam de baliza à análise de cenários pós-eleitorais, os números sobre as intenções de voto na capital de São Paulo impressionam.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2012 | 03h01

Hoje desenham um horizonte pior que o mais pessimista dos cenários que poderia ter sido traçado pelo PSDB quando o partido apelou a José Serra para que fosse candidato.

Ele não queria, preferia se guardar para 2014, mas cedeu aos argumentos de que a candidatura era o único jeito de impedir o PT de voltar à Prefeitura e, a partir daí, quebrar a hegemonia política dos tucanos no Estado mais importante do País.

O que era dado como uma vitória quase certa - até no campo adversário - vai se configurando como uma possibilidade grande de derrota.

Caso se confirme, o PSDB entregará ao PT a joia da coroa dessa eleição. Objetivamente, porém, não anulará os problemas que o partido da Presidência enfrenta desde que Lula deixou o Palácio do Planalto.

Não fará desaparecer as fissuras que levaram a derrotas importantes em colégios eleitorais relevantes como Pernambuco e Minas Gerais, muito menos livrará o PT de seus problemas com a lei.

Mas, se Fernando Haddad ganhar, o PT terá nas mãos um aparelho (mais um) e tanto, além de um êxito político espetacular do qual se vangloriar. Ao menos até a posse do novo prefeito quando, então, as coisas voltam ao seu curso normal.

Nessa hora é que serão elas.

O PT não pode se fiar só em Lula nem imaginar que possa seguir ignorando o efeito deletério das ações agora condenadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Uma vitória em São Paulo ou onde quer que seja não apaga os fatos, não anula sentenças judiciais nem aplaca os naturais apetites dos partidos hoje parceiros e que estão querendo ver andar a fila do poder.

Por seu lado o PSDB não poderá fugir de refletir sobre a identificação social de seus quadros e a eficácia de seus procedimentos.

A rejeição de mais de 50% a José Serra não é um dado irrelevante e talvez não possa ser atribuída exclusivamente a razões de temperamento do candidato.

Tem política sendo mal feita nessa história. A autofagia grassa, o atabalhoamento é evidente, o rumo é inexistente, a debilidade de lideranças chega a constranger e projeto de País, se existe no partido os tucanos o têm escondido bem.

Há um pretendente à eleição presidencial, o senador Aécio Neves. Bem como no PSB há a ideia de emplacar o governador Eduardo Campos como a grande novidade, há sempre o PMDB movimentando-se para cá e para lá, há a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição.

Há em todo lado planos de conquista da Presidência. Muita gente querendo chegar lá, mas até agora não há na praça nada de inovador e consistente sendo dito em termos de projeto de País.

Não é absurdo supor que provavelmente resida aí a razão de ausência tão acentuada do eleitor nessas eleições, conforme informam os números de abstenções, votos nulos e brancos na rodada de 7 de outubro.

Passadas as comemorações e as lamentações com os resultados de domingo que vem, os partidos estarão cada qual com suas peculiaridades, diante do mesmo desafio de falar como adultos à sociedade.

Cerca Lourenço. A cúpula do PMDB finge que acredita na desculpa do governador Sérgio Cabral de que o prefeito Eduardo Paes falou sem pensar quando lançou seu nome para vice na chapa pela reeleição de Dilma Rousseff em 2014.

Na realidade, a direção pemedebista acha que Paes falou de caso pensado. Tudo devidamente combinado com o governador e seu grupo, hoje preponderante na política do Rio.

Embora não arrisque um palpite sobre o verdadeiro objetivo do "lançamento", fica a impressão: Cabral está costeando o alambrado.

Como sabe o leitor atento, era a expressão usada por Leonel Brizola quando identificava no aliado forte vontade de mudar de lado. No caso, de partido.

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