Imagem João Bosco Rabello
Colunista
João Bosco Rabello
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O desafio da tradução

A camisa de força do marketing nas campanhas é, senão causa única, a principal na dificuldade da oposição de assumir o protagonismo das mudanças desejadas pelos 60% dos eleitores entrevistados na última consulta popular.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2013 | 02h05

A ditadura do marketing, classificação adotada como síntese desse processo, leva a classe política a fazer programas para ganhar eleições, produzindo peças de campanha para agradar aos eleitores, sem vínculo com a realidade do país. Uma espécie de manual do bem estar e da felicidade, que reúne as aspirações de todos os segmentos sociais.

Sua aplicabilidade é inviável, mas, como as campanhas são assentadas em promessas palatáveis a todos os gostos, pouco importa o compromisso com sua execução. Opera-se com base num cardápio cuja leitura emprenha pelos ouvidos. O depois é futuro.

Como todos tendem a focar os desejos e valores do eleitor médio, as campanhas ficam pasteurizadas, como bem assinalou o analista político Leonardo Barreto, em artigo para o broadcast político, da Agência Estado.

É um contexto que favorecerá sempre candidatos oficiais com índice de aprovação sustentável, acima dos 40%, porque ocuparão o vácuo de insatisfação com a visibilidade dada a atos de governo de grande impacto eleitoral.

É o que se testemunha no estágio atual cinicamente denominado de pré-campanha, cujo fato mais recente é a saída de cena do marqueteiro do PSDB, Renato Pereira, defensor de uma linha de trabalho aparentemente em oposição a esse círculo vicioso.

A saída da oposição pode estar no desafio de traduzir para a compreensão popular temas de média e grande importância para o país, excluídos dos debates de campanha pela complexidade que os tornam monótonos e desinteressantes, diante do modelo superficial imposto pelo marketing de resultados.

São temas, no entanto, que podem sensibilizar o eleitorado se eficientemente vinculados aos dia-a-dia do cidadão. Tamanho do Estado, choque de gestão, reforma tributária e Pacto Federativo soam como aramaico para o cidadão comum - e, em alguma profundidade, mesmo para iniciados na política.

Porém são de vital importância para todos. O pacto federativo, para ficar num exemplo, já merece há muito tempo a tradução de independência de gestão dos Estados, mostrando os benefícios que pode gerar para a solução de problemas que afetam o cotidiano de regiões cujas peculiaridades e interesses específicos não sensibilizam o governo central.

É muito mais que isso, mas a síntese é indispensável para se impor nos debates eleitorais sem espantar o eleitor .

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.