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O cronômetro e o umbuzeiro

O valor do minuto de propaganda eleitoral disparou na semana passada - e é sua cotação que vai determinar o destino dos candidatos a presidente daqui para frente. A oscilação afetou diretamente as chances de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Como? Em tempo. Antes, um passo atrás para olhar o contexto desse sobe e desce de preços.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h06

Com o aumento do ruído de fundo e das tentações eletrônicas, a atenção do público perde-se à deriva. O cidadão é mais disperso e menos atento na razão da densidade de suas conexões. Quanto mais envolvido pelos quintilhões de bits e bytes que o novo mundo digital produz diariamente, mais difícil é para cortar pelo cipoal de dados e encontrar significado e rumo através da selva de textos, telas e fragmentos de informação.

Essa tendência está mudando as campanhas eleitorais. O tempo pelo qual o eleitor é capaz de se concentrar no tema da eleição e decidir seu voto é progressivamente mais curto. A cada pleito, o período decisório dos sem-candidato - quando o eleitor menos interessado se informa para definir em quem votará - é tanto mais breve quanto mais próximo do dia de ele ir à urna.

Pudera ser quase impossível encontrar candidato que sobreviva à reta final da campanha eleitoral sem um estoque mínimo de tempo para propaganda de TV. E a nota de corte sobe a cada eleição: mais e mais minutos são necessários para o candidato superar intenções de voto liliputianas e assomar acima dos nanicos.

Nesse cenário, levam vantagem candidatos que têm um eleitorado cativo e se beneficiam da inércia do voto. Não basta ser muito conhecido, porém. É preciso ter marca forte e rejeição desproporcional ao grau de conhecimento, ou o candidato cai no paradoxo serrano: quanto mais aparece, menos eleitores têm. A rejeição alta - como a falta de tempo de TV - é eliminatória.

Mesmo os candidatos conhecidos batalham por mais tempo de propaganda. Se não para eles próprios aparecerem, para impedir que os adversários apareçam. Essa é a batalha em curso, e que antecipa a sucessão de 2014. Quem já tem muito tempo, como a presidente, tenta amarrar as alianças para não deixar preciosos minutos escaparem para a oposição. Quem não tem corre atrás.

Dilma é assombrada pela inflação também de aliados. Por proteção, a presidente fez um caxangá ministerial na quinta-feira: tirou Brizola Neto (PDT) do Trabalho, pôs um mineiro na Agricultura e deixou o peemedebista Moreira Franco ficar, mas num posto menos decorativo. Tudo para reforçar a aliança com o PMDB e tentar resgatar os fugidios e divididos pedetistas.

O equilibrismo presidencial amarrou os dois minutos e meio do PMDB, deu um laço nos 45 segundos do PDT, mas deixou escapar o minuto e 40 do PSD de Gilberto Kassab. O ex-prefeito percebeu que a cotação do tempo de TV está em alta e comprou uma opção de venda futura quando, aposta, o apoio de seu partido valerá mais do que o microministério oferecido por Dilma.

A manobra especulativa não foi só de Kassab. O PPS tenta reverter sua decadência eleitoral fundindo-se ao nanico PMN. Mesmo juntos, os dois partidos têm poucos segundos a oferecer em tempo de TV a um presidenciável. Mas a criação da nova sigla abre a Caixa de Pandora da fidelidade partidária: deputados de outros partidos podem aderir sem perder o mandato - foi a jurisprudência criada pelo TSE ao julgar o caso do PSD.

O PPS+PMN aposta que atrairá deputados de outras siglas se a nova legenda estiver aliada ao PSB de Eduardo Campos em 2014. Acha que atenderá uma demanda reprimida na Câmara. O movimento ajudaria o governador de Pernambuco a alcançar o mínimo de 12% do tempo de TV (98% dos candidatos a prefeito que não atingiram esse patamar não se elegeram nem chegaram ao segundo turno em 2012).

Quem mais tem a perder com a fusão é Aécio Neves. O tucano não apenas perderia os segundos de TV do PPS, como veria a candidatura oposicionista de um rival ganhar viabilidade eleitoral. Potenciais aliados, como PTB e DEM, poderiam se sentir tentados a embarcar na canoa reforçada de Campos. Pior, tucanos dissidentes poderiam pular fora do barco de Aécio.

"Mineiro" à la Getúlio Vargas, o ex-governador de Minas gostaria de esperar em cima do umbuzeiro até a undécima hora - e só saltar para a campanha presidencial quando as condições lhe fossem ideais. Mas tem tucano cortando o tronco do umbuzeiro.

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