O 'costureiro' político de Dilma Rousseff

Lula assume negociações de alianças políticas para manter PMDB e PSB ao lado da presidente e vai liderar críticas ao PSDB

VERA ROSA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h04

Ela fará tudo para tirar a economia das cordas e ele cuidará da política. Assim ficou acertada a distribuição de tarefas entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, para o projeto petista da reeleição. Embora a disputa seja em 2014, a estratégia já foi traçada. Depois de lançar a candidatura de Dilma a um segundo mandato, na última quarta-feira, o ex-presidente atuará como "facilitador" das alianças para o palanque da herdeira e porta-voz do PT no embate com os tucanos.

Lula vai se encontrar, nos próximos dias, com o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), e com os governadores Eduardo Campos (Pernambuco), Sérgio Cabral (Rio) e Cid Gomes (Ceará). A troca de Temer (PMDB) por Campos (PSB), na chapa da reeleição, chegou a ser cogitada por Lula como forma de manter o governador pernambucano, que sonha com a Presidência, na coalizão de Dilma.

O problema é que o plano foi rejeitado pelos protagonistas antes mesmo de ser apresentado formalmente. Agora, Lula vai dizer a Temer que foi mal interpretado. Ele confidenciou a interlocutores que não só defende a permanência do vice na dobradinha com Dilma como pedirá a ajuda do PMDB para neutralizar, em Minas, o senador Aécio Neves (PSDB), provável candidato do PSDB ao Palácio do Planalto. No acordo, a seção do PMDB mineiro pode levar um ministério.

"Temer é sempre solução. Dilma deve muito a ele a tranquilidade que tem na relação com o PMDB", afirmou o ex-presidente. "Lula voltou com gosto de gás, disposto a fustigar os adversários e a reassumir o seu papel de costureiro da política", resumiu o senador Jorge Viana (PT-AC), numa referência à festa para comemorar os 10 anos do partido no governo, após a condenação de petistas no julgamento do mensalão. "O PT saiu do córner e Lula está cada vez mais livre para auxiliar Dilma."

Na investida para unir o PMDB, o ex-presidente jantará com Cabral e com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, na quarta-feira. Um dia depois estará em Fortaleza, onde terá encontro com Cid Gomes, além de participar de um seminário promovido pelo PT, no qual o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, é um dos palestrantes convidados. O encontro com Eduardo Campos deve ocorrer no início de março.

Tantos gestos na direção do PSB não são à toa: Lula quer evitar o racha no palanque de 2014. Em conversas reservadas, ele diz não acreditar que Campos saia candidato à sucessão de Dilma. Avalia, porém, que é preciso fazer um afago ao aliado.

"Eu sou daqueles que defendem espaço para o Eduardo na eleição presidencial de 2018", afirmou o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). "Não podemos falar em legitimidade da Dilma para ser candidata sem falar na manutenção do Temer. Por que mudar, por que inventar?"

A declaração de Wagner expressa o novo discurso de Lula. Na última reunião com Dilma, na quarta-feira, o ex-presidente também tratou da reforma ministerial, prevista para março, e da consolidação de marcas de governo para a campanha do segundo mandato, tocada pelo marqueteiro João Santana. "O terceiro ano da administração é sempre o melhor", disse Lula. "Agora, a gente está colhendo o que plantou e precisamos mostrar isso. Não podemos perder a batalha da comunicação."

A preocupação do PT e do governo reside na economia. No momento em que o Banco Central estima um crescimento de 1,6% para 2012 - o dado oficial do PIB, calculado pelo IBGE, sai em março - e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) seguem emperradas, a imagem de Dilma como boa gestora enfrenta críticas da oposição.

Enquanto as coisas não melhoram na seara econômica, a presidente aposta no discurso do fim da pobreza, na queda dos juros, na manutenção da renda e do emprego e na bandeira do combate à corrupção para aumentar sua popularidade.

"Agora, falta a ela identificar esse governo como sendo também do PMDB", provocou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). "O PT vive falando que o PMDB tem o vice e também a presidência da Câmara e do Senado, mas parece não ligar para essa movimentação do PSB." Vieira Lima lembrou que o partido dirigido por Eduardo Campos comanda dois ministérios (Integração Nacional e Portos), o PMDB controla cinco (Minas e Energia, Previdência, Agricultura, Turismo e Assuntos Estratégicos) e o PT, 18. "Será que não é hora de começar a valorizar quem não está nem ameaçando sair da base?", perguntou.

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