O comunista cujo 'dogma' é a liberdade

Livro conta vida de Armênio Guedes, assessor 'rebelde' de Prestes e do PCB durante 4 décadas

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h04

Era comum entre comunistas, no século passado, debater o "caminho democrático para o socialismo". Armênio Guedes, que militou no Partido Comunista Brasileiro de 1938 a 1983, propunha outro plano: o do "caminho democrático para a democracia".

A diferença entre as duas ideias é o eixo central do livro Armênio Guedes - Sereno Guerreiro da Liberdade, que o jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de Redação do Estado, lança amanhã à noite na unidade da Livraria da Vila na Alameda Lorena, em São Paulo.

"A democracia é um valor permanente, e não é o fim da História", justifica o baiano Armênio, hoje com 95 anos, apreciador de vinhos, jazz e música erudita, em seu apartamento na região central de São Paulo. Mas, como revelam as 252 páginas do livro, essa não é a única discordância entre o militante de quatro décadas do Partidão e seus camaradas. Armênio passou a vida criticando a rigidez do stalinismo, o personalismo do líder Luiz Carlos Prestes, a Intentona de 1935, a adesão ao golpismo de João Goulart em 1964, mas principalmente a falta de diálogo no PC.

Marighella era para ele uma figura fascinante, "mas politicamente um desastre". João Amazonas, um "dromedário do comunismo". Em Moscou, nos anos 50, vendo a adoração por Stalin, ele achava "meio chata aquela história de pai dos pobres". Botafoguense fanático, era um raro comunista que, num jogo Brasil e URSS, torcia pelo Brasil.

Era previsível, assim, sua saída do partido em 1983, de um modo banal: pegou o salário, saiu sem dizer nada e foi ao cine ma. Não voltou. "Ele tinha uma visão absolutamente antitotalitária dentro do partido. Ficou porque não tinha alternativa", resume, no livro, seu colega de exílio José Serra.

Armênio levou consigo sua marca de homem "manso, sereno", mas "firme, irremovível", como o descreve Ferreira Gullar. Ao fim de longas conversas com seu biografado, Vaia faz de sua história um fio condutor para expor o grande conflito vivido pela esquerda desde sempre, entre autoritarismo e liberdade.

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