'O combustível é o ódio contra a injustiça'

Para o cineasta Domingos Oliveira, nova geração estava farta de ser acusada de alienada e motivo maior de tudo foi 'a indiferença dos políticos'

Entrevista com

Roberta Pennafort / Rio, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2013 | 02h12

O cineasta e dramaturgo Domingos Oliveira está tão perplexo quanto entusiasmado com os protestos pelo Brasil. Ainda que não distinga uma pauta clara em meio aos milhares de cartazes, ele tem um olhar carinhoso para a juventude que "não sabe o que quer, só o que não quer". Envolvido nos protestos contra a ditadura na década de 60, Domingos, de 76 anos, acha que os slogans daqueles anos ainda encontram eco nas ruas. "Seja razoável, peça o impossível."

Que reflexão faz dos protestos?

Estou confuso, como todo mundo. É um fenômeno inédito, que bota a gente para pensar muito. Os problemas da corrupção, da educação, da saúde e do transporte não são os problemas objetivos, e sim a indiferença dos políticos de um modo geral. Está todo mundo perplexo, mas isso tudo vai ser um bem para o Brasil.

Por que os artistas estão encolhidos?

Os artistas estão calados porque sabem que não tem solução rápida. Não querem se meter porque a hora é de objetivar as exigências, dizer o que se quer.

Então não há espaço para demandas da área cultural?

A cultura tá f..., só que a arte é a única coisa que o homem tem para tocar profundamente os outros, tem um bisturi que vai onde ninguém mais vai. A crise de ética brasileira é enorme. É claro que não se pode gastar milhões e milhões em estádios para os Jogos Olímpicos se o entorno está em estado de miserabilidade.

Qual o real combustível das manifestações?

O combustível é o ódio interno que as pessoas têm contra a injustiça social. No primeiro peteleco, que foi a questão dos ônibus, as pessoas foram pra rua desabafar sua revolta. A nova geração estava de saco cheio de ser acusada de ser alienada.

Teme que a iniciativa seja apropriada indevidamente?

Todo mundo está querendo ficar dono do movimento, porque foi bonito. A Dilma disse isso no pronunciamento. Mas por que ela não consertou as coisas antes? O discurso que falta não vai ser feito. Tinha que ir para a televisão e dizer: "Nós queremos a mesma coisa que vocês querem. Eu não gosto de ver gente agonizando no corredor do hospital. Eu quero, mas não tenho poder para isso, não sou um ditador".

Vê paralelos entre esses protestos e os do passado?

É um fenômeno igual na medida que é um desabafo da nossa revolta, é um exercício da nossa selvageria. Mas é diferente porque são dados sociais diferentes. Nos anteriores, estava se pedindo algo específico, agora se pede a mudança de uma moral. Ninguém sabe o que quer, só sabe o que não quer, e vai pedir mesmo assim. Isso é novo, revolucionário, moderno.

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