O bolso decide a eleição?

Analistas garantem que sim, e veem na falta imediata de melhores perspectivas de vida a maior ameaça para Dilma

Lu Aiko Otta, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2014 | 22h00

BRASÍLIA - O mundo político, como tantos outros, tem suas “escritas”. Uma delas é o poder de inércia – deixar tudo como está –, que beneficia candidatos à reeleição presidencial. No Brasil recente, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva confirmam a escrita. Nos Estados Unidos, 12 presidentes se candidataram a novo mandato nos últimos 75 anos e nove foram reconduzidos à Casa Branca. Por essa regra, a eleição do mês que vem deveria ser uma “barbada” para a petista Dilma Rousseff. 

Não é o que se percebe no momento. A sequência de números ruins da economia tornou o cenário eleitoral incerto – a ponto de, nas pesquisas mais recentes, a presidente estar perdendo no segundo turno para a oposicionista Marina Silva (PSB). Se o País estivesse “bombando”, Marina provavelmente não estaria surfando na onda de insatisfação geral, afirmam especialistas ouvidos pelo Estado. E a diferença, admitem, é o peso da economia nas decisões do eleitor. Na prática, é uma reafirmação da famosa frase “é a economia, idiota!”, com que o assessor James Carville explicou a vitória de Bill Clinton sobre George Bush pai nos EUA em 1992. Bush, presidente, falava de guerra e de valores. Clinton falava do custo de vida e de impostos.

A história recente do País combina com essa tese. Em 1989 Fernando Collor ganhou num cenário de inflação explodindo em mais de 1.700% ao ano. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso ganhou por ter domado a inflação com o Plano Real – e, quatro anos depois, com economia em crise, ganhou de novo porque convenceu o eleitorado de que seria arriscado para o bolso de todos, naquele cenário de incerteza, mudar o comando do País. Em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva sobreviveu a duros ataques por causa do mensalão e se reelegeu porque a economia ia bem.

Emoção. “Os estudos mais recentes, do século 21, mostram que o eleitor decide o voto com base na emoção”, diz o sociólogo Antonio Lavareda, da MCI Estratégia, apontado no meio político como um psicólogo das massas. “E não há parte do corpo humano que produza mais emoções do que o bolso.”

É a partir do bolso que as pessoas se angustiam com o futuro e realizam seus sonhos, explica. Por isso, ele preside a formação de sentimentos mais duradouros sobre a vida e sobre como a cidade, o Estado e o País estão sendo conduzidos. “No Brasil, o bolso decide”, confirma o cientista político Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Análise. “Existem outros fatores, mas a economia é o que tem maior peso – a situação real e a percepção dela.”

As duas principais medidas do bem-estar financeiro das pessoas são o emprego e o custo de vida, medidos pelos índices de inflação. E o quadro hoje até que está razoável, observa Rafael Cortez, da consultoria Tendências. “Não é por acaso que o eleitorado de baixa renda é pró-governo”, diz. “Ele não tem problemas com a crise.”

Há duas linhas convergentes que explicam por que, então, a reeleição de Dilma está difícil. Para Cortez, as manifestações de junho passado introduziram dois novos temas que, ao lado do bolso, passaram a pesar na decisão do eleitor. “A primeira é que há uma crise de representatividade na política brasileira, um descolamento entre o que a sociedade quer e o que os partidos políticos podem entregar”, informa. E aí está a força de Marina. Ela personificou melhor a alternativa, ao defender o fim do presidencialismo de coalizão. 

Para Almeida e Lavareda, porém, é o bolso – de novo – que explica as manifestações. “Os protestos tiveram vários deflagradores, mas um deles foi o aumento acentuado da inflação, em particular dos alimentos”, diz Almeida. O Brasil registra um caso em que o presidente foi reeleito com crescimento zero, lembra Almeida. Foi o caso de Fernando Henrique Cardoso em 1998. “A melhoria dos quatro anos anteriores o reelegeu.”

Embate. Para Lavareda, o problema de Dilma é que agora o eleitor está “ressentido”. Não se vê ameaçado de demissão, mas gostaria de ter mais opções de emprego, com melhores salários, se a economia estivesse melhor. E esperava isso, porque a presidente recebeu uma economia em crescimento. “Pegou um carro a 300 quilômetros por hora e ele agora está parado.” Com uma agravante: Dilma afrouxou os controles sobre a inflação para permitir mais crescimento – que não veio. Isso está, segundo ele, por trás da “oceânica” taxa de rejeição da candidata do PT. Superá-la é, agora, o maior desafio. “Se ela não mudar isso, não ganha no segundo turno.” 

Canalizadora das insatisfações que os “pibinhos” fizeram aflorar nos protestos, Marina está em posição de vantagem, acredita Rafael Cortez. Mas, alerta Lavareda, ela tampouco terá vida fácil. “O ideal era que ela ficasse numa redoma, simbolizando os mais diversos segmentos: evangélicos, negros, jovens.” Mas, diz ele, quanto mais se torna real, mais ela se parece com a classe política que diz combater. “Ela é a candidata do não, mas o que a viabiliza é o sistema, a classe política tradicional.”

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