'Núcleo duro' de Dilma na Câmara encolhe em 2012, revela Basômetro

Novo projeto do Estadão gera visualização da atuação dos deputados e dos partidos em 98 votações nominais ocorridas desde 2011

ESTADÃO DADOS, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h06

A presidente Dilma Rousseff enfrentou seu primeiro ano no cargo com uma base fiel e coesa na Câmara: nada menos do que três quintos dos deputados tiveram uma taxa de fidelidade ao governo superior a 90% nas votações realizadas em 2011.

Esse "núcleo duro", porém, teve forte encolhimento e agora reúne menos da metade dos deputados, segundo revela o Basômetro, ferramenta que permite mapear pela internet o comportamento de parlamentares e partidos nas votações nominais da Câmara realizadas desde o início da legislatura. O Basômetro (politica.estadao.com.br/estadaodados) é o primeiro trabalho do núcleo Estadão Dados (leia na página A11).

Em seu primeiro ano, Dilma teve 306 deputados de 17 partidos a seu lado em pelo menos 90% das votações. Apenas 239 se mantiveram com essa taxa de fidelidade no acumulado de 2011 e 2012. Levando-se em conta somente os votos deste ano, o núcleo duro fica ainda menor: 118 parlamentares.

Das 98 votações nominais nas quais o governo orientou sua base, a presidente perdeu apenas cinco, sendo três referentes ao Código Florestal. Mas o número de votos conquistados oscilou em momentos de crise. De maio a outubro de 2011, durante a chamada "faxina" nos ministérios, o governo teve o apoio de menos de três quartos dos deputados em cerca de metade das votações. Nos dois meses seguintes, o porcentual de votos pró-governo foi sempre superior a 75%.

Com 87% de posicionamentos contrários à orientação do Palácio do Planalto, o deputado Eli Correa (DEM-SP) disse ao Estado que "nada contra a corrente" ao tentar derrubar projetos de interesse de Dilma. "A gente tenta mobilizar os descontentes da base, mas é difícil."

No outro extremo, José Guimarães (PT-CE) votou 93 vezes, todas com o governo. "Aprendi no sertão do Ceará que em política você tem de ter lado. Tenho fidelidade ao programa da presidente." Também com taxa de governismo de 100%, a deputada Iracema Portella (PP-PI) considerou uma "coincidência" o fato de se posicionar sempre de acordo com a orientação do Planalto. "Voto de acordo com minha consciência." / JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, AMANDA ROSSI, EDUARDO MALPELI e DANIEL BRAMATTI

Análise: Marcelo de Moraes

A crise no relacionamento da presidente Dilma Rousseff com sua base de apoio tem pesado decisivamente na redução da fidelidade de seus aliados na Câmara. O desgaste começou ainda no ano passado, quando Dilma deflagrou a faxina dentro de seu governo, dispensando ministros supostamente envolvidos com irregularidades cometidas em suas pastas.

Nesse processo, a maioria dos partidos aliados sofreu baixas. PMDB, PP, PC do B, PDT e PR viram colegas de legenda serem rifados pela presidente e não esconderam sua decepção.

O quadro de insatisfação tornou-se maior ainda com o endurecimento na liberação de recursos pagos por meio de emendas parlamentares.

Como Dilma cortou cargos e verbas, justamente os dois maiores pontos de interesse dos parlamentes, isso resultou na redução de seu apoio dentro do Congresso, como mostram os dados das votações na Câmara.

Isso, porém, não significa que o governo corre o risco de perder sua maioria entre os deputados. O que acontece é que a fidelidade se tornou muito mais pulverizada. Ou seja, os líderes governistas precisarão vigiar ainda mais as insatisfações pontuais em cada votação para não serem surpreendidos e perderem projetos do seu interesse.

Este ano, os dados de votação exibem claramente essa fragmentação de apoio na Câmara. A votação do Código Florestal é um exemplo de como o governo já não é mais senhor absoluto do rumo de sua base. O texto aprovado desagradou ao governo e deve obrigar Dilma a vetar trechos apoiados pelos deputados. É uma situação com a qual a presidente deverá ter que lidar possivelmente até o fim de seu mandato.

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