Núcleo de campanha de Dilma aposta em Marina colada em Aécio

Dirigentes do PT acreditam que reviravolta causada por morte de Eduardo Campos levará disputa eleitoral para segundo turno

VERA ROSA , O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2014 | 23h32

Marina Silva deverá aparecer nas próximas pesquisas de intenção de voto "colada" em Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência que hoje ocupa o segundo lugar na disputa. A avaliação foi feita nesta sexta-feira, dia 15, no Palácio da Alvorada, na primeira reunião do núcleo da campanha de Dilma Rousseff após o acidente aéreo que matou o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB).

Em três horas de conversa com Dilma, que ontem também gravou cenas para o programa de TV em um estúdio montado no Alvorada, ministros e coordenadores da campanha avaliaram que Marina subirá por causa da comoção nacional provocada pela morte de Campos, na última quarta-feira. O ex-governador ocupava o terceiro lugar nos levantamentos de opinião, atrás de Aécio. Dilma lidera todas as sondagens, mas dirigentes do PT acreditam que agora, com a reviravolta no cenário eleitoral, a disputa pela Presidência será em dois turnos.

Ministros e dirigentes do PT que participaram da reunião no Alvorada não têm dúvida de que Marina substituirá Campos e já estabeleceram um cronograma de trabalho para a próxima semana, após o sepultamento do ex-governador. O objetivo é atrair os descontentes do PSB para o palanque de Dilma ou, no mínimo, conseguir a neutralidade da maioria dos governadores e prefeitos do partido, que era comandado por Campos.

Onda. A preocupação da campanha de Dilma está em segurar rapidamente o provável crescimento de Marina para evitar uma "onda" de mudança no País. No diagnóstico dos participantes do encontro no Alvorada, Marina passa uma imagem de renovação na política, que precisa ser desconstruída.

O temor do Planalto é que a ex-ministra do Meio Ambiente no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva atraia os votos de protesto "contra tudo o que está aí", daqueles que participaram das manifestações de junho de 2013, dos indecisos, dos jovens e das mulheres -- dois segmentos onde Dilma não vai bem e enfrenta dificuldades para crescer.

Com essa avaliação, o comando da campanha petista pretende lançar dúvidas sobre a capacidade de Marina liderar um País tão complexo, nesse momento de percalços na economia.

"Uma coisa era ela ser vice do Eduardo. Outra é ser candidata a presidente", disse um ministro ao Estado, sob a condição de anonimato, ao afirmar que os quase 20 milhões de votos obtidos por Marina, na eleição presidencial de 2010, podem não se repetir agora, porque o cenário é outro. "Será que a classe média vai querer arriscar tudo, tão perto da eleição? As pessoas vão pensar: vale a pena mudar nesse momento de tensão? E os setores do agronegócio, que gostavam do Eduardo, mas têm várias divergências com ela?"

Para o comitê de Dilma, Marina enfrentará "uma guerra" no PSB de Campos e será prejudicada no dia a dia por causa da relação conflituosa entre a legenda e a Rede Sustentabilidade -- partido que será sua prioridade após a eleição. Na noite desta sexta-feira, coordenadores da campanha de Dilma disseram a ela que, se o PT não der um tiro no pé, o racha no PSB poderá acabar beneficiando a sua candidatura.

Lula e ministros do PT, como Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Relações Institucionais), iniciarão as negociações com o PSB após o sepultamento de Campos, previsto para domingo. A estratégia consiste em reforçar o assédio ao antigo aliado para impedir a ascensão da terceira via na política. Para os petistas, a polarização de Dilma com Aécio é mais fácil e mais previsível porque reedita a estratégia do "nós contra eles".

Ao analisarem os palanques nos Estados, auxiliares de Dilma observaram que a situação mais complicada para Marina acertar os ponteiros com o PSB será em São Paulo. No maior colégio eleitoral do País, o deputado federal Márcio França, presidente do PSB paulista, é o candidato a vice da chapa do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que concorre ao segundo mandato. "Não temos dúvida de que Marina será a candidata, mas a vida dela não será fácil no PSB", comentou um ministro. 

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