Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

‘Nossa aliança nacional é com o PT e nada muda’, afirma Kassab

Ex-prefeito dará palanque a Dilma em SP e descarta apoio ao PSB ou PSDB

Fernando Gallo, Mallu Delgado e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h07

Criador do PSD e presidente da sigla, o ex-prefeito Gilberto Kassab deixa claro, em entrevista ao Estado, que vai caminhar com o PT no cenário nacional e apoiará a reeleição de Dilma Rousseff. A adesão de Marina Silva à provável candidatura de Eduardo Campos (PSB) - o que "dá musculatura" ao governador, segundo ele - não reverte o quadro, ainda que o pernambucano tenha sido aliado de primeira hora do PSD. A certeza é tanta que, convidado a teorizar sobre um cenário hipotético com reviravoltas no PT, PSDB e PSB, em que os candidatos fossem o ex-presidente Lula, o ex-governador José Serra - seu padrinho político - e a ex-ministra Marina Silva, Kassab é direto: "Nossa aliança é com o PT. Apoiaria Lula". Em São Paulo, Kassab será o candidato do PSD - "aceito a missão", diz - e oferecerá o palanque a Dilma. Geraldo Alckmin não será atacado diretamente (esse é o plano por ora), mas o argumento para o confronto com os antigos aliados tucanos está posto: "É evidente que, depois de 20 anos, as pessoas vão ficando cansadas. O governador Geraldo Alckmin vai pagar um preço alto por integrar um governo tão longo".

Olhando o retrato de hoje: o sr. é candidato ao governo de São Paulo?

O partido vai ter candidato. Gostaria muito que fosse o Henrique (Meirelles, ex-presidente do Banco Central), mas ele resiste. Existe uma tendência grande de que a escolha caia no meu nome. Se isso acontecer, aceito a missão.

O sr. deve enfrentar Geraldo Alckmin (PSDB) e Alexandre Padilha (PT). Já foi aliado dos tucanos e agora se aproxima dos petistas. Como vai se posicionar?

Com uma proposta própria, mostrar que temos um projeto e uma equipe. Ao contrário de outros candidatos, tivemos a experiência de governar a maior cidade do País. Na campanha, não vamos olhar para trás e jogar pedra.

Esse discurso da experiência vale para o ministro Alexandre Padilha?

Seria desrespeitoso eu dizer que não tem experiência. Ele tem. É ministro.

Alckmin procurou o sr. há cerca de duas semanas para falar sobre eleição?

Não conversei especificamente sobre eleição com ele. Temos uma relação cordial, civilizada. Ele me apoiou no segundo turno da eleição municipal.

As mágoas foram superadas?

Quais mágoas?

Houve a exoneração do vice-governador (da Secretaria de Desenvolvimento Econômico) após filiar-se ao PSD... A adesão de Guilherme Afif ao governo Dilma gerou um constrangimento.

Isso foi superado. Não há nenhum questionamento ético. Ele foi exonerado. Foi um gesto do governador, que era contra a criação do partido.

Quais presidenciáveis poderão subir no seu palanque em SP?

Quem meu partido apoiar. E a tendência é apoiar a presidente Dilma.

Só haverá espaço para Dilma?

Evidente.

O sr. vem da oposição ao PT e agora se aproximou. Mudou o PT ou o sr.?

O grupo que deixou o DEM saiu por entender que aquele não era o modelo de oposição que a gente queria, de ser contra por ser contra. Deixamos o DEM por essa circunstância. Ao longo do processo, o PSD se aproximou do PT, mas não é um partido na órbita do PT.

Seria natural o PSD ocupar os espaços que o PSB deixou no governo?

Acordamos com a presidente que, enquanto não tivéssemos a definição de apoiá-la, seríamos independentes. Caso se confirme a tendência de apoiar Dilma, é natural e legítimo que o partido participe do governo. É uma honra ter Afif no governo, mas não foi indicação partidária, foi convidado em uma relação pessoal. Se Dilma perder, vamos para a oposição com o PT.

José Serra ficou no PSDB por ainda acreditar que pode disputar o Planalto?

A tendência do PSDB é ter o Aécio candidato, mas estamos a um ano da eleição. Alguns lançamentos de candidaturas foram prematuros. As coisas podem mudar. Haja vista a decisão da Marina de apoiar Campos.

O sr. quer dizer que não confia 100% na candidatura de Aécio?

Estou falando em relação à candidatura do Serra. Ele tem um sonho de vida de ser presidente. É legítimo.

Mas o sr. falou que há candidaturas prematuras.

Não disse candidaturas. Disse que o processo foi antecipado.

Então esse quadro pode mudar?

Pode. As convenções são em junho. Até acredito que não mude. Especulam sobre Marina e Eduardo, Lula e Dilma. No PSDB também é assim.

O sr. ofereceu espaço no PSD para Serra disputar a Presidência?

Não. A tendência é apoiarmos a Dilma. Ele sabe disso. Nunca escondi de ninguém. É algo muito consolidado. Já há 14 Estados com Dilma.

O apoio da Marina a Campos, que o ajudou a criar o PSD, muda o quadro?

Não muda.

A dupla Campos-Marina prejudica mais a quem e a quem beneficia?

Fortalece mais o Eduardo, mas traz ânimo à candidatura da Dilma, que trabalha com a hipótese de vencer no 1.º turno. Não ajuda, mas não prejudica o Aécio.

Em São Paulo havia uma aproximação do PSB com Alckmin. Agora cogitam até em apoiar o sr. Há conversas?

Nas conversas que tive com companheiros do PSB, senti neles a vontade de ter candidatura própria para ajudar o Eduardo. Alguns admitem aliança com o Geraldo. A tendência é sairmos sozinhos no 1.º turno.

Marina disse ser vítima da truculência do governo federal, que não queria a criação da Rede, e dos cartórios. Não acredito. A Justiça Eleitoral é muito séria. Passei por isso. O que posso dizer é que a lei para a criação de um partido no Brasil é muito rigorosa. O registro do PSD saiu alguns dias antes do prazo de filiação.

Se o sr. fosse o atual prefeito, como responderia às manifestações de junho? Reduziria a tarifa de ônibus?

Tive diversas manifestações no meu governo. Sempre as tratei com naturalidade. Em relação à tarifa, temos um histórico de sempre ter a menor tarifa possível com o maior subsídio possível. Se eu ficasse mais quatro anos, faria uma nova licitação. Não quero dizer que o contrato estava errado, mas passaram-se dez anos.

Seu palanque em SP agregaria votos para Dilma, o 'voto conservador'?

O meu eleitor vai estar identificado com nosso partido. Evidente que terá tendência em analisar o voto na presidente Dilma. Dois palanques é melhor que um.

Pode haver um desgaste com o PSDB em SP depois de 20 anos?

Não digo desgaste porque não quero ser desrespeitoso com o partido ou o governador. Mas é evidente que, depois de tanto tempo, o candidato passa a perder uma certa credibilidade na apresentação de propostas porque as pessoas perguntam: 'Se não fizeram em 20 anos, farão agora?' Acredito que o governador Geraldo Alckmin vai pagar um preço alto por integrar um governo tão longo.

Se o cenário de 2014 tiver Lula, Marina e Serra, o apoio do PSD muda?

Não. Nosso apoio seria para o ex-presidente Lula.

Mesmo se Serra for candidato?

O PT contribuiu para construir essa boa relação conosco, diferentemente de parte do PSDB. A aliança nacional com o PT é natural.

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