'Nós temos de evitar o populismo fiscal', afirma Alckmin

Governador de SP admitiu que novas secretarias podem ser extintas até fim do ano e explica que objetivo é preservar investimentos

Entrevista com

Malu Delgado - O Estado de S.Paulo

29 Junho 2013 | 02h06

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou ontem em entrevista à TV Estadão que poderá extinguir novas secretarias - hoje há 25, já considerando a incorporação da pasta de Desenvolvimento Metropolitano com a Casa Civil. O governador anunciou um pacote de cortes, antecipado na edição de quinta-feira do Estado, que, segundo ele, é uma medida de "responsabilidade fiscal" para permitir que os investimentos sejam mantidos diante da necessidade de subsidiar a redução das tarifas de transporte. No anúncio feito pela manhã, Alckmin também não descartou demissões. Foram extintos 2.036 cargos comissionados que ainda não tinham sido ocupados.

O pacote anunciado é uma medida para evitar corte de investimento em virtude da redução das tarifas de transporte?

Exatamente. É uma medida de responsabilidade fiscal. A redução da tarifa do metrô, do trem e dos ônibus, se somarmos tudo, são R$ 129 milhões neste ano (metrô e trem) e no ano que vem R$ 209 milhões (que o Estado terá de cobrir para garantir a redução da tarifa). Eu acho que nós corremos um risco no País de um populismo fiscal. Ou seja: se suprime tarifas e aí do outro lado corta investimento. Então nós estamos dizendo: São Paulo não fabrica dinheiro, então nós vamos cortar custeio para não mexer no investimento. Então vai desde a venda do helicóptero, passando por redução da frota de veículos, diárias, telefonia, custeio, fechamento e extinção de uma secretaria de Estado, extinção de uma empresa estatal, fusão de três fundações do governo numa só, extinção de autarquia.

Outras medidas estão em curso e pode haver novos anúncios até o fim do ano?

Com certeza. Esse foi o primeiro conjunto de medidas. Já estamos estudando outras. Acho que o clamor das ruas, o que a sociedade deseja é: primeiro, o Brasil está muito caro. Agora, quando se reduz tarifas é preciso dizer onde cortar o gasto. E nós não devemos reduzir investimento. Até porque, no caso de mobilidade urbana, o que mais precisamos é investimento. Estamos no ajuste fino. Não é não gastar, é gastar bem. Isso que a população deseja. Existem, sim, outras medidas no organograma do Estado. Questão das fundações, das autarquias, das secretarias...

Então não está descartada a extinção de outra secretaria?

Exatamente. Estamos estudando outras reformas que mantenham boas políticas públicas, mas com menor custo.

As medidas que o sr. anunciou vão na linha de um discurso do PSDB nacional, que propôs à presidente Dilma corte de ministérios e redução de custeio. Os governadores do PSDB farão articulação conjunta ou isso foi uma medida exclusiva de São Paulo?

A medida que nós tomamos foi só do Governo de São Paulo. Mas nós todos (do PSDB) acreditamos nisso. A economia brasileira vive um momento de fragilidade. O crescimento do PIB está abaixo do esperado, a inflação, especialmente de alimentos, é muito alta, indicadores de balança comercial frágeis, muito aumento de importação... Não podemos correr o risco de populismo fiscal, que aí prejudicará a economia. Precisamos de investimentos para poder crescer mais, gerar mais emprego, movimentar a economia. E há risco de centenas de bilhões de reais migrarem de investimento para custeio. São Paulo fez sua lição.

O sr. participou de uma reunião ampliada da presidente Dilma Rousseff com todos os governadores do País e prefeitos de capitais. A presidente enumerou 5 pactos, incluindo a ideia de Constituinte, que não prosperou, e agora o governo federal insiste no plebiscito. O sr é a favor?

Sou contra a Assembleia Constituinte específica. Você faz Constituinte quando há uma ruptura. Não é o caso. Não tem o menor sentido isso. De outro lado, consultar a população é sempre bom. Tanto pode ser o plebiscito quanto o referendo. Qual a dificuldade do plebiscito? O que você vai perguntar para a população, porque há questões técnicas complexas. Não descarto o plebiscito, mas acho que se não conseguir formular bem a pergunta, talvez seja melhor o Congresso decidir e depois submeter a referendo. Mas tem muita coisa que não depende de mudar a Constituição. É vontade política, já devia ter sido feita há três anos a reforma política.

O que é prioridade agora?

Defendo o voto distrital. Há uma crise de representatividade. As pessoas não se sentem representadas pelos eleitos. Segundo: cláusula de desempenho. Não é possível ter trinta partidos políticos. Não há democracia no mundo que tenha trinta partidos, então proibição de coligação proporcional.

Que avaliação o sr, faz hoje de sua conduta política durante as manifestações nas ruas?

Procuramos sempre ter a humildade de ouvir. Não temos compromisso com o erro, nós temos compromisso com a verdade. A manifestação é louvável, é um momento novo no Brasil. Ouvir, ver, enxergar, tomar medidas ao encontro da sociedade, que quer serviço público melhor, austeridade, eficiência no gasto público, ética na política e, de outro lado, coibir o vandalismo, depredação, saque, tirar o direito de ir e vir. E é nisso que trabalhamos: garantir a segurança dos manifestantes e, de outro lado, evitar que vândalos cometam crime.

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