André Dusek/AE
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Nos EUA, Dilma testará discurso mais conciliador

Presidente chega hoje a Washington para encontrar com Obama, a quem pretende pregar "união" no combate à crise econômica

VERA ROSA, ENVIADA ESPECIAL / WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h09

Depois de acusar os países ricos de patrocinarem um "tsunami monetário" com suas políticas expansionistas, a presidente Dilma Rousseff desembarca hoje à noite em Washington levando na bagagem um discurso mais conciliador.

Em sua primeira visita oficial aos Estados Unidos, Dilma vai destacar amanhã, na Casa Branca, a necessidade de unir esforços no combate à crise econômica mundial, apesar das divergências. Ao lado do presidente americano, Barack Obama, ela baterá na tecla de que a resposta à instabilidade provocada pela manipulação cambial exige ação conjunta e imediata.

Dilma insistirá no argumento de que a desvalorização artificial da moeda cria barreiras injustas à competitividade dos produtos, especialmente no Brasil. Mas o tom de seu principal pronunciamento será na linha de que ninguém tem a ganhar com uma competição predatória e sem o crescimento equilibrado do comércio internacional.

Trata-se de uma viagem sem grandes expectativas para os dois lados, num momento de crise internacional, campanha de Obama pela reeleição e turbulências no Oriente Médio. Dilma vai aproveitar a visita de dois dias para "vender" um país de oportunidades, chamar os empresários para investir no Brasil e anunciar parcerias no programa Ciência Sem Fronteiras, que oferece bolsas de estudo no exterior.

Acompanhada de sete ministros, a presidente percorrerá, na terça-feira, as instalações do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade de Harvard, duas instituições dirigidas por mulheres, em Cambridge, na área metropolitana de Boston. Em Harvard, ela discursará na Kennedy School of Government.

O Ciência Sem Fronteiras é, hoje, um dos poucos pontos de convergência na pauta entre Brasil e EUA. Do cancelamento de uma concorrência vencida pela Embraer para fornecimento de 20 aviões Supertucano à Força Aérea Americana a posições conflitantes em relação a Cuba, há vários contenciosos na relação. A Casa Branca não deixou de notar, por exemplo, que Dilma sequer mencionou a desvalorização artificial da moeda chinesa na Cúpula dos Brics - formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, em Nova Délhi.

Irã. Na passagem por Washington, a presidente relatará a Obama o encontro dos Brics e vai reiterar posições ali aprovadas, como o direito de o Irã usar o programa nuclear para fins pacíficos, e o repúdio às violações de direitos humanos na Síria. Dilma dirá ao colega que ameaças militares e sanções, como as defendidas pelos EUA, não ajudam a construir a paz.

A visita tem praticamente o mesmo formato daquela feita por Obama ao Brasil, em março de 2011. Nos EUA também haverá reunião do Fórum de Altos Executivos (CEOs) dos dois países, na qual Dilma será acompanhada por Obama. Depois, ela seguirá para a Câmara de Comércio, onde participará do seminário "Brasil-Estados Unidos - Parcerias para o Século 21".

Dilma vai pregar uma nova política de combate à crise econômica, ancorada na expansão do investimento e do consumo. De olho nas exportações, ela lembrará que Brasil e Estados Unidos já estão juntos no G-20, bloco que reúne potências industrializadas e emergentes, e podem ter novas parcerias estratégicas, principalmente em áreas como ciência, tecnologia e inovação.

Desde 2009, o Brasil acumula seguidos déficits comerciais com os Estados Unidos. No ano passado, a balança desfavorável chegou a US$ 8,2 bilhões. "Os Estados Unidos são o segundo principal parceiro comercial do Brasil, só perdendo para a China, mas nós achamos que eles podem comprar bem mais. Além disso, queremos o fim de algumas barreiras contra nossos produtos", afirmou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade.

Diante dos empresários, Dilma vai reiterar o que vem dizendo na seara doméstica: o modelo de desenvolvimento brasileiro é aberto ao capital estrangeiro. Ela sublinhará, porém, a importância da transferência de tecnologia nos negócios.

Na Casa Branca, Dilma também tentará atrair Obama para o barco do desenvolvimento sustentável. Em disputa pelo segundo mandato, ele avisou que não comparecerá à Rio+20, a conferência das Nações Unidas que ocorrerá em junho, no Rio. Embora a justificativa seja a agenda lotada, na prática Obama não quer mexer no vespeiro da emissão de gases do efeito estufa. Dilma, no entanto, está disposta a convencê-lo de que a Rio+20 tratará de soluções para a crise pelo lado da inovação tecnológica. / COLABOROU DENISE CHRISPIM MARIN

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