Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Nos Estados, depoimentos não revelam novidades

Assim como a comissão nacional, grupos de âmbito regional têm dificuldades para apresentar fatos novos

O Estado de S.Paulo

05 de março de 2014 | 02h04

Com 66 anos, voz pausada e notável simplicidade no modo de vestir e falar, Antonio Pires Eustáquio esteve na Assembleia Legislativa de São Paulo, na semana passada, para um depoimento. A convite da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual Rubens Paiva, foi falar sobre o caso dos militantes de esquerda que, no início da década de 1970, ainda na ditadura, foram enterrados com nomes falsos no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em São Paulo.

O depoimento dele foi claro, longo e até emocionado. Não acrescentou nada, porém, ao que já sabe sobre o assunto. Pires, que administrou o cemitério depois daqueles fatos e acabou contribuindo de forma decisiva para seu esclarecimento, apenas repetiu o que já disse em várias outras ocasiões. Uma delas foi perante a Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal, que, lá atrás, em 1990, investigou o caso.

O caso do administrador é um exemplo da dificuldade que as comissões da verdade, tanto a nacional quanto as que atuam nos Estados e municípios, enfrentam para definir suas ações.

Ainda na semana passada, na mesma atividade conjunta das comissões nacional e estadual, foram ouvidos peritos criminais sobre o caso de oito integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), mortos entre 1972 e 1973, em São Paulo. O objetivo era desmontar a versão oficial, de que teriam morrido em confrontos armados. O mais provável, segundo os peritos, é que tenham sido presos, torturados e executados por agentes do Estado.

Nesse caso também não houve novidade significativa. As principais informações constam de relatórios produzidos pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, que foi criada em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Denúncia. Outro exemplo da dificuldade para se definir o rumo e os limites das investigações sobre o período da ditadura apareceu na Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo. Na semana passada o grupo decidiu investigar uma denúncia de que o general Amaury Kruel, que comandava o 2.º Exército na época do golpe militar de 1964, teria sido subornado. Em troca de seis maletas cheias de dólares, segundo a denúncia, o comandante teria retirado o apoio que vinha dando ao presidente João Goulart, passando a apoiar o golpe.

O que a comissão tem até agora é o depoimento do coronel reformado Erimá Pinheiro, de 89 anos. Cassado em 1964 pelo Ato Institucional n.º 1, ele diz que presenciou a entrega dos dólares ao general. No ano passado já havia dado o mesmo depoimento ao Instituto João Goulart.

É a segunda vez que a comissão de vereadores aposta num tema de repercussão nacional, deixando de lado questões locais. No ano passado investigou a causa da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 1976, na Rodovia Presidente Dutra, numa viagem para o Rio. Explicou-se o interesse porque a viagem havia começado em São Paulo. No caso da denúncia sobre Kruel, o encontro aconteceu em São Paulo.

Para familiares de mortos e desaparecidos, as comissões deveriam dedicar mais atenção à localização dos corpos e aos esclarecimentos das circunstâncias das mortes. Para Laura Petit, que perdeu três irmãos na Guerrilha do Araguaia, a Comissão Nacional deveria convocar mais militares.

"Não é difícil", diz ela. "Os familiares dos mortos e desaparecidos sabem os nomes dos militares envolvidos, suas promoções, condecorações e os locais onde se encontram."/R.A

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