Nos debates, muita corrupção, educação, segurança e inflação

Esses foram os temas preferidos nas mais de cinco horas em que Dilma e Aécio estiveram frente a frente; cultura, turismo e reforma agrária ficam de fora

Valmar Hupsel Filho , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 17h24

Quando as urnas disseram que a disputa pela Presidência seria decidida no 2º turno, os finalistas Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) comemoraram a oportunidade de, na ausência de outros concorrentes, poderem discutir mais profundamente suas propostas nos embates diretos promovidos pelos debates. Mas o que se viu nos quatro encontros entre eles foi justamente o contrário. 

Nos debates promovidos pela redes de TV Band, SBT e Record, o confronto direto entre os candidatos, sem interferência externa, em vez de promover o aprofundamento das propostas serviu para o acirramento da troca de denúncias, repetição de argumentos e pouca variação de temas. A exceção foi o último, promovido pela Globo na noite de sexta-feira, cujo formato permitiu espaço para perguntas feitas por eleitores indecisos. Isso obrigou os candidatos a, ao menos em parte do tempo, apresentarem suas propostas para assuntos específicos. 

Dilma e Aécio se enfrentaram por mais de cinco horas seguidas, se somados os tempos dos quatro debates. Mesmo com tanto tempo disponível, ficaram de fora da discussão assuntos como reforma agrária, política cultural, fomento ao turismo, demarcação de terras indígenas, proteção aos recursos naturais, aborto, incentivo ao esporte ou diretrizes para o combate ao racismo e de promoção da igualdade racial.

A agricultura, segmento cada vez mais importante para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, só foi discutido no último debate, quando os candidatos foram instados a falar por um eleitor. 

Em 16% do tempo, a discussão entre a petista e o tucano foi dedicada à troca de denúncias e ofensas. Foram computadas neste item acusações como a de desvios de dinheiro da Petrobrás reveladas pela Operação Lava Jato, a construção do aeroporto de Cláudio (MG), nepotismo “engavetamento” de processo. Neste quesito estão as trocas de acusações sem que isso significasse uma discussão sobre determinado tema. 

Não estão computadas, por exemplo, as denúncias trocadas entre os candidatos sobre temas específicos, como as que Dilma repetiu nos três debates sobre a não aplicação do porcentual mínimo exigido pela legislação na área de Saúde no governo de Aécio em Minas ou a crítica ao crescimento da inflação durante a administração da petista, feita pelo tucano. 

Nestes casos, o tempo foi computado respectivamente nos itens Saúde e Inflação, mesmo quando não houve apresentação de propostas. 

Ao falar sobre determinado tema - como Educação, o mais discutido entre eles - os candidatos procuraram seguir a cartilha dos marqueteiros. Aécio tentou mesclar críticas pontuais ao governo com propostas sobre aquele assunto enquanto Dilma, candidata à reeleição, apresentou o que foi feito em seu governo, ainda quando era questionada sobre suas propostas a respeito de determinado assunto. 

Em um cenário de empate técnico na maior parte da campanha no 2.º turno, os candidatos apostaram na discussão sobre os mesmos temas, como educação, saúde, desemprego e programas sociais. A repetição chegou a tal ponto que, no encontro promovido pela Record, no dia 19, Dilma usou a mesma a pergunta feita a Aécio cinco dias antes, na Band. 

Ao responder sobre suas propostas para o ensino superior, o tucano deixou o eleitor com a sensação de déjà vu, ao repetir exatamente a mesma linha de raciocínio que fez na semana anterior - disseque, para ele, a educação se inicia com a oferta de creches de qualidade. 

“Foram debates negativos, repetitivos. Falou-se mais do que o outro não fez do que pretendiam fazer”, observa Rubens Figueiredo, cientista político da USP. Ele lembra que os debates seguem a lógica de programas de TV, onde a principal preocupação é transmitir imagem agradável ao telespectador. “Por isso, são escolhidos temas mais palatáveis, do dia a dia. Antes de serem eleitores, quem assiste aos debates são telespectadores. Temas como política externa desviam a atenção”, disse.

Para o professor Fernando Antonio de Azevedo, especialista em Comunicação e Política ligado à Universidade Federal de São Carlos (UFScar), o pouco tempo disponível para perguntas e respostas também dificulta o aprofundamento da discussão propostas. “O tempo é curto. Os debates acabam sendo a extensão dos programas do horário eleitoral.”

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