Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Nos bares, paulistanos ignoram debate entre presidenciáveis

Instigado pela reportagem, gerente de boteco trocou futebol pelo debate e comentou: 'Se deixar ligado aí, afugenta todo mundo'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 01h11

Um grupo de amigos assistia, com moderado interesse, a vitória do Goiás contra o Figueirense pela Série B do Brasileirão, em um bar da Rua dos Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Àquela altura nenhum deles sabia que, naquele mesmo horário (23h), estava sendo realizado o segundo debate entre candidatos à Presidência da República nas eleições 2018, transmitido pela RedeTV.

Instigado pela reportagem, o gerente do boteco sacou o controle remoto e por menos de 1 minuto trocou o futebol pelo debate. “Se eu deixar a televisão ligada nisso aí, não entra um cliente. Afugenta todo mundo”, disse Pedro Dantas, que trabalha há 38 anos na noite.

Dantas pode ter razão. O Estado percorreu bares, botecos e restaurantes da região da Paulista e Vila Madalena e não encontrou nenhuma televisão ligada no debate entre presidenciáveis. Não que tenha faltado televisores ligados, não. Eles estavam sintonizados no jogo da Série B, em uma partida de tênis com Roger Federer, programas de surfe, lutas de MMA, videoclipes musicais, novelas e até no History Channel. No debate? Nenhuma.

"As pessoas já não gostam de política, marcar um debate para sexta à noite não ajuda em nada”, disse a advogada Paula Hilsdorf, de 32 anos, que tomava um chope sem se preocupar com o que estava passando na televisão. “Tinha que ser de segunda-feira. O eleitor se engaja mais nos dias de semana. Tem, inclusive, mais repercussão nas redes sociais.”.

Na mesma mesa, o engenheiro Bruno Manarelli, de 31 anos, concordou. “Sexta é dia das pessoas relaxarem depois de uma semana puxada. Não tem como se concentrar em eleição.”

Descendo a Rua Aspicuelta, coração dos bares na Vila Madalena, ninguém parecia conectado com o encontro entre presidenciáveis. A descrença com a política misturava-se com a vontade de curtir a sexta-feira. “Eu não moro em São Paulo. Estou aqui para visitar e sair com amigos. Me desculpe, mas não vale a pena perder essa chance de se divertir para ver os candidatos falando a mesma coisa”, disse a técnica de enfermagem Flávia Dias, 35 anos.

O médico Pedro Luís Greco, de 52 anos, era o retrato do cansaço. Depois de sair do plantão, ele só pensava em tomar um chope e respirar aliviado pelo fim de mais uma semana. "Esse ano está difícil votar. Imagina quanto é difícil assistir um debate então...Acho importante, claro. A eleição está começando e ainda vamos ter tempo para isso. Mas sexta à noite é muito complicado", afirmou.

Até quem tem candidato decidiu deixar pra lá. A desempregada Caroline Ferreira, de 24 anos, está inclinada em votar no deputado Jair Bolsonaro (PSL). Apesar do interesse por política, ela pretende ler e se informar sobre o que ocorreu com seu candidato no debate apenas na próxima segunda-feira, 20. "Hoje eu estava precisando de uma cerveja. Na segunda, vejo na internet, converso com amigos e procuro os memes", brincou. 

Na frente de um bar que estava passando um jogo de tênis, a publicitária Mariana Roboreto, de 25 anos, tenta explicar o desinteresse em relação ao debate. "É uma questão de target. Esse público, que vai dos 21 aos 34 anos, que sai a noite, não vai trocar uma sexta por um debate entre políticos. Acho até que quem é mais velho, já tem família, e prefere ficar em casa,  pode ter interesse", disse.

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