Nomes da Comissão da Verdade preocupam oficiais

Um dos pontos de tensão que inquietam militares da reserva com relação à Comissão da Verdade, criada no ano passado para apurar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, é a sua eventual composição. Oficiais das Forças Armadas aposentados - alguns veteranos das ações de repressão à guerrilha - preocupam-se com a possível nomeação apenas de pessoas ligadas ao "outro lado" ou que não sejam neutras em relação aos episódios. Nos últimos dois dias, dirigentes dos clubes militares, porta-vozes dessas preocupações, movimentaram-se para tentar acalmar os militares e se dissociar da radicalização de posições.

WILSON TOSTA / RIO, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h09

"A comissão já foi aprovada pelo Congresso, o problema é a designação de seus membros, para que haja elementos dos dois lados", disse ao Estado o presidente do Clube Naval, vice-almirante da reserva Ricardo Antônio da Veiga Cabral. "A verdade não tem de ser só de um lado. O que a gente espera é que haja equilíbrio." Ele afirmou que o movimento dos clubes "não é como a greve do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar da Bahia". "A coisa é um problema mais ético que financeiro", destacou.

O militar ressaltou que o Clube Naval não teve participação no manifesto Alerta à Nação - eles que venham por aqui não passarão, que recebeu mais de 230 assinaturas de apoio até ontem, mas criticou a reação do governo de repreender os militares signatários do manifesto. "O sujeito não pode falar o que quer? Está na reserva, não tem mais compromissos na Força. A não ser que fosse algum desrespeito à presidente. O debate é livre. Estamos em uma democracia."

Ex-presidente do Clube Militar, o general da reserva Gilberto Figueiredo ressaltou que não poderia falar em nome da entidade, mas também se mostrou preocupado com a comissão. "Essa comissão é desnecessária. O que tem de fazer é abrir arquivos para historiadores, que têm de fazer as versões", defendeu. "O que preocupa é o possível facciosismo. Tem de apurar o que aconteceu dos dois lados."

Manifesto. Anteontem, o Clube Naval divulgou em seu site nota afirmando que o documento assinado pelos três Clubes de oficiais das Forças Armadas - que recebeu mais de 230 assinaturas - não havia sido aprovado para divulgação. O almirante Cabral afirmou ao Estado que nem o Clube Naval, nem o Clube de Aeronáutica aprovaram o manifesto. Depois que o Clube Militar colocou o texto em seu site, o governo reagiu e o obrigou a publicar uma nota de retratação, que ficou menos de meia hora no ar. Outros militares, porém, contestaram a versão da Marinha. Houve quem falasse que a divulgação fora aprovada e quem afirmasse que houve um mal-entendido. O Estado apurou que o presidente do Clube Militar, general da reserva Renato César Tibau da Costa, divulgou nova nota aos associados afirmando que o primeiro manifesto já cumprira sua função e pregando a pacificação dos ânimos.

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