Werther Santana / Estadão
Werther Santana / Estadão

Nome do PV ainda dá expediente na Saúde

Parcos recursos do pré-candidato da sigla, Eduardo Jorge, contrastam com a campanha de Marina em 2010

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2014 | 02h07

A partir de julho, quando a campanha começar oficialmente, o médico sanitarista Eduardo Jorge, de 64 anos, pré-candidato do PV à Presidência, estará em todos os debates eleitorais e contará com 1 minuto e 30 segundos diários para falar o que quiser na propaganda de TV. Mas enquanto isso não acontece, ele pode ser visto diariamente no fim da tarde entre os passageiros que aguardam sua vez de embarcar em um dos ônibus que passam em frente ao ponto instalado na altura do número 500 da Avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste. "Antes eu andava com o Bilhete Único sempre carregado, mas agora passei a ser enquadrado na categoria idoso e não pago mais a passagem."

Se o dia amanhece ensolarado, Eduardo Jorge monta em sua bicicleta de 12 marchas e faz pedalando o trajeto de meia hora que começa em sua casa na Rua Tangará, na Vila Mariana, na zona sul, e termina na Secretária de Estado da Saúde, onde cumpre expediente das 8h às 17h, entre segunda e quarta-feira. "Só tem uma subida puxada no caminho, que é a Rua França Pinto. O bom é que volto com o vento batendo no rosto."

Funcionário público concursado desde 1976, ele não pretende mudar de rotina até o início da campanha presidencial. Enquanto seus adversários já rodam o País desde o ano passado, em ritmo cada vez mais intenso, a pré-campanha de Eduardo Jorge começou apenas neste feriado de Páscoa, com uma viagem a Boa Vista, capital de Roraima. "O PV de lá tem uma militância boa na área dos índios. Teremos vários candidatos (da etnia) macuxis", diz.

Contraste. A agenda modesta e os parcos recursos do PV em 2014 contrastam com a campanha de Marina Silva pelo partido em 2010. A essa altura daquele ano, a ex-ministra, agora filiada ao PSB, sigla pela qual sairá como candidata a vice do presidenciável Eduardo Campos, já rodava o País a bordo de um jatinho Legacy cedido pelo empresário Guilherme Leal - seu candidato a vice na época -, dono da empresa de cosméticos Natura.

Ao contrário de Eduardo Jorge, que passa despercebido no ponto de ônibus, Marina era recebida como celebridade nos Estados durante a pré-campanha. Terminado o primeiro turno, o PV obteve quase 20 milhões de votos. "Desta vez nós esperamos ser o Ituano da eleição", compara-se o pré-candidato ao pequeno time que derrotou os favoritos São Paulo, Palmeiras e Santos e conquistou o Campeonato Paulista deste ano.

A campanha de 2014 será de fato um choque de realidade para a cúpula nacional do PV, mas há quem veja nisso um lado positivo. "A Marina montou uma organização própria dentro do partido em 2010. Agora será diferente. Nossa campanha não terá endeusamento", afirma José Luiz Penna, presidente nacional da legenda desde 1999.

O "aparato" da pré-campanha de Eduardo Jorge se resume hoje a uma assessora de imprensa contratada pelo partido. O próximo passo será alugar uma casa "modesta" no centro de São Paulo para servir como comitê da campanha. A única exigência do pré-candidato é que ela fique perto do metrô. Para otimizar a rotina, que é digna de um time que disputa a quarta divisão do Campeonato Brasileiro, o PV vai concentrar a agenda de viagens de Eduardo Jorge nos Estados onde o partido contará com candidatos a governador e comitês próprios: Paraná, Rio de Janeiro, Tocantins, Acre e São Paulo. "Além disso, vamos visitar na pré-campanha pelo menos uma vez todas as cidades com mais de 500 mil habitantes. Será uma campanha super austera, franciscana mesmo", diz Marco Mroz, um dos mais graduados dirigentes da sigla. Questionado sobre a estimativa de gastos na pré-campanha, Penna faz algumas contas de cabeça e responde: "Uns R$ 300 mil".

Após Marina deixar o PV de forma litigiosa em 2011, o partido passou a divulgar que tinha uma lista de nomes, ou um "personograma", como opções para a disputa de 2014. O preferido era o ex-deputado Fernando Gabeira. Ele chegou a viajar o País cumprindo agendas partidárias, mas desistiu do projeto para retomar a carreira de jornalista. O segundo nome ventilado pela sigla foi o do escritor de livros de autoajuda Augusto Cury, mas a ideia também não prosperou. Eduardo Jorge só foi sacramentado às vésperas do Natal do ano passado.

Apesar de ter sido anunciada oficialmente, a candidatura ainda é vista com ceticismo pelos partidos que buscam alianças para conseguir mais espaço na TV. Prova disso foi um convite feito a Eduardo Jorge na semana retrasada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). "Encontrei com ele em um evento na Secretaria da Saúde e ele me perguntou o que eu achava de ser Secretário do Meio Ambiente. Respondi que não poderia pois vou disputar a Presidência."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.