Nome a zelar

Se alguém provoca lamentos e sentimentos sinceros de solidariedade no PT por causa das condenações no Supremo Tribunal Federal, é José Genoino e ninguém mais.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2012 | 02h06

Se algo é capaz de mobilizar os petistas na reação ao vigor das sentenças do STF, é a preservação do nome do partido e nada mais.

É uma constatação que se faz desviando-se a atenção da cenografia radical do presidente Rui Falcão para se ouvir o que se diz entre as várias correntes do partido.

Fala-se com sincero pesar do destino de Genoino. "Não merecia" são as duas palavras recorrentes. "Não tinha noção do real alcance de seus atos oficiais" é a frase síntese da avaliação de que o então presidente do PT entrou na história como Pilatos no Credo.

Já José Dirceu e Delúbio Soares, se não são aberta e nominalmente criticados, tampouco contam com a mesma compreensão. Não chega a haver um ânimo de defesa de punições internas, mas não há disposição de transformar os réus em fatores de motivação do PT a entrar numa cruzada contra o Supremo.

Esse é o clima preponderante entre parlamentares, ministros, parte dos dirigentes, prefeitos e governadores do partido. Daí a suspensão da divulgação do manifesto de protesto à atuação do STF inicialmente prevista para logo depois das eleições.

A ideia só não foi oficial e definitivamente arquivada porque o PT pode ainda reagir de maneira mais forte caso ao fim do julgamento sinta que o nome do partido corre o risco de "ir para o lixo".

Aí, sim, poderia haver apoio partidário a recursos a cortes internacionais, manifestos e mobilização da militância para, na defesa dos "mártires", organizar o que na realidade seria um desagravo partidário para preservar o projeto coletivo de poder.

O resultado eleitoral de São Paulo serviu para conter as posições internas mais belicosas e fazer prevalecer a posição mais moderada que prefere virar essa página, seguir apostando na renovação de quadros e na construção de um novo perfil para o PT.

Plano pragmático que Lula começou a pôr em prática em 2005, com a abertura de espaço para novos personagens - Dilma Rousseff é um exemplo - distanciados da lógica de atuação do comando do aparelho que resultou no escândalo do mensalão.

O revés sofrido com o julgamento rigoroso gerou, no entendimento do PT, um "ambiente de intolerância" que levou à defesa de uma causa perdida, deu sobrevida à velha geração e, a depender de como venha a ser resolvida a questão, atrasará o projeto do partido de se reinventar.

Modelagem. O PMDB segue firme, embora não unânime, no apoio a Renan Calheiros para a presidência do Senado.

O partido sabe dos riscos da volta de Calheiros à ribalta depois de ter renunciado ao mesmo cargo e quase perdido o mandato por ter permitido que um lobista de empreiteira pagasse a pensão de uma filha e por ter mentido ao plenário para se defender das suspeitas do uso de laranjas na compra de duas rádios e um jornal em Alagoas.

Há entre pemedebistas o receio de que a exposição de Calheiros o ponha de novo no foco de denúncias, exatamente como ocorreu com Jader Barbalho.

Insistiu em ser presidente do Senado em 2001, não obstante o passivo de acusações de desvio de verbas do banco estadual quando governou o Pará, irregularidades na gestão à frente do Ministério da Previdência e malversação de recursos da Sudam.

Em pouco tempo as denúncias que até então estavam em banho-maria voltaram à tona. Barbalho foi obrigado a deixar a presidência do Senado seis meses depois de eleito e também a renunciar ao mandato.

Em 2007 Calheiros escapou da cassação por causa do voto secreto, cujo fim foi aprovado em julho último pelo Senado e deve ser votado até o fim do ano na Câmara.

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