No compasso da espera

A eleição em São Paulo tem alcance nacional não apenas por colocar um novo ator no centro da cena, mas também por ser capaz de processar modificações nos jogos partidários; influir em futuras disputas. No compasso da espera desta eleição, não se pode afirmar quem a vencerá: pesquisa é pesquisa, voto é voto. Mas é possível diminuir a ansiedade discutindo o alcance de eventual vitória de um ou de outro candidato.

CARLOS MELO - CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DO INSPER, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2012 | 03h03

A vitória de Fernando Haddad moverá placas tectônicas sob solo petista. Haddad não representa o PT tradicional. Seu PT não é dos movimentos, parlamentos, sindicatos ou sacristias; menos ainda da máquina burocrática que se conformou. É um professor universitário que se fez político pela via da administração no governo federal. Possui outra racionalidade, é pouco ideológico; não se confunde com oligarquias, grupos e esquemas de financiamento. Claro, prefeito, terá que compor, mas é pouco provável que se faça refém, como se deu com Marta Suplicy.

Haddad foi intervenção de Lula em um PT desgastado, capaz comprometer o governo federal e a eleição de 2014. É, aliás, sua segunda intervenção - a primeira foi Dilma -, resultado do temor de entregar o poder real dos governos à burocracia partidária, com suas mazelas. Poder mais consistente que o figurativo dos corredores, das cizânias entre grupos, indivíduos e ideologias do partido; poder que requer pragmatismo, pois exige resultados. Lula aprendeu isso; é sua realpolitik.

Os indícios estão no governo Dilma. Lá, os mais relevantes ministérios não são resultado de indicações dos conclaves petistas; seus titulares possuem autonomia em relação à burocracia e são, antes, escolhas da presidente; não do partido. O PT de São Paulo, por exemplo, foi colocado de canto. Os petistas lá presentes por essa via estão na periferia, não no centro nervoso do governo. A grande parte dos ministros paulistas, antes de tudo, é lulista e ou dilmista.

Se vier a seguir a lógica dos padrinhos, como parece lógico, a eleição de Haddad pode significar o enfraquecimento da velha militância - não mais militante, mas profissional - e dos caciques e famílias desgastados pela corrosão do tempo e dos métodos. Seria o encerramento de um ciclo geracional iniciado na fundação do partido, naturalmente debilitado pelo julgamento do mensalão. É razoável imaginar uma renovação, cujos efeitos possam pesar nas articulações de 2014 e 2018.

Também no PSDB, a eleição de José Serra implicará redefinições. Prefeito, confirmará a perspectiva de poder que sempre lhe cerca, origem do fascínio que emana. Talhado ao poder, sabe exercê-lo na perspectiva de seu projeto e não abre mão de influenciar pessoas, grupos e governos, quando não de dirigi-los diretamente. É legítimo que queira manter-se. Soube desde sempre que esta eleição era sua única chance - antes, até mesmo a presidência da Fundação Teotônio Vilela lhe fora negada.

É pouco provável que, para além da propaganda do adversário, Serra realmente abandone o eventual mandato na prefeitura para se candidatar ao governo do Estado ou à Presidência da República. Após tudo o que passou na campanha, sabe que não haveria condições, a não ser por circunstâncias extraordinárias. Todavia, o controle de uma máquina do tamanho da capital de São Paulo lhe traria poder suficiente para continuar a intervir com vigor no partido; influenciar linhas gerais, na oposição, nas campanhas eleitorais de 2014 aos diversos governos de Estado e à Presidência. Na eventualidade de vitórias, influenciar os governos.

Nesta quadra de espera, são duas as perspectivas e dois os projetos. Um será colocado em andamento imediatamente após a divulgação dos resultados das pesquisas de boca de urna. Outro, não terá passado de hipótese. Mas, como disse o poeta, vida é luta renhida; se vencer, Serra continuará na lida. Se perder, não se sabe... Já para Fernando Haddad, ganhando ou perdendo, a liça começa agora.

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