No adeus, lágrimas pelo ministro esquecido

Depois de nove meses de governo sem recebê-lo, Dilma chama Luiz Sérgio de 'amigo e parceiro' e chora em sua saída

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h04

Embora tenha chorado ontem ao se despedir do ministro Luiz Sérgio (Pesca) na cerimônia em que o trocou pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), a presidente Dilma Rousseff pode ter exibido, na cena, um acúmulo das emoções vividas por ela nos últimos dias - e não só o pesar pelo amigo que ia embora.

No meio da tarde de quinta-feira, Dilma viajou de surpresa a São Bernardo, para uma conversa de cerca de três horas com seu mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na véspera, Dilma havia enfrentado uma rebelião de PMDB, PDT, PSB e até so PT, na votação do projeto que cria o Fundo de Previdência do Servidor Público (Funpresp). Ela vive também uma crise com os militares da reserva por causa da Comissão da Verdade.

Dilma teve de recorrer ao PRB, para aumentar ainda mais o tamanho da sua base de apoio, tornando-a um pouco mais confiável. No discurso que fez durante a cerimônia, ela reconheceu que está amarrada ao sistema de alianças e que a ele tem de oferecer os lugares pedidos no governo. Caso do ministro Marcelo Crivella.

Um exame nas 417 agendas oficiais da presidente, entre sua posse e ontem, mostra que Luiz Sérgio foi o ministro que menos recebeu atenção. Como ministro da Pesca - nove meses, de junho até ontem - ele jamais foi recebido em audiência particular. Não há registro de sua presença em nenhuma das agendas presidenciais do período.

Procurado, o Palácio do Planalto comentou as não-audiências de Luiz Sérgio. De acordo com a Secretaria de Imprensa do governo, "como ministro da Pesca, Luiz Sérgio teve sua presença solicitada pela presidenta em seis viagens ao Rio de Janeiro , uma ao Paraguai, além de ter participado de reunião setorial".

Os encontros não constam da agenda oficial. Antes de ser ministro da Pesca, Luiz Sérgio foi ministro das Relações Institucionais. Segundo o governo, ele teve "mais de uma centena" de encontros com Dilma. A agenda registra quatro encontros.

No discurso de despedida de Luiz Sérgio, Dilma afirmou, com lágrimas nos olhos, que ele foi "um amigo e um parceiro". Prosseguiu dizendo que ele "compreende a natureza de um governo de coalizão". Sem mencionar que Luiz Sérgio foi líder do PT na Câmara, a presidente lembrou que, no governo de Lula, ele prestou "relevantes serviços ao governo". Por fim, desejou sucesso ao ex-ministro em sua volta, como deputado, ao Congresso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.