Ninguém ganhou eleição para ficar escolhendo ministro, diz Falcão

Presidente do PT afirma que Dilma não vai antecipar equipe em caso de reeleição e que partido quer inflação no centro da meta sem arrocho ou desemprego

Carla Araújo e Elizabeth Lopes, Agência Estado

06 de agosto de 2014 | 15h20

São Paulo - O presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha à reeleição de Dilma Rousseff, Rui Falcão, afirma que economia não será o ponto fraco da petista na disputa contra o tucano Aécio Neves e o candidato do PSB, Eduardo Campos. Para o deputado estadual, que desistiu de tentar novo mandato para se dedicar exclusivamente à campanha da presidente, a prioridade de um eventual segundo mandato será trazer a inflação ao centro da meta, fixada em 4,5% ao ano, sem provocar desemprego ou arrocho salarial.

Falcão discorda de quem aponta problemas nos fundamentos da economia brasileira e rebate a iniciativa de Aécio, que pretende anunciar nomes de uma eventual equipe econômica durante a campanha eleitoral para "acalmar os mercados". "Ninguém ganhou ainda a eleição para ficar escolhendo ministros. Nomear ministro antes de ganhar a eleição é se antecipar ao veredicto das urnas", afirmou.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva ao Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado:

A economia vai ser o calcanhar de Aquiles da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff?

Não concordo. O debate principal será a disputa de projeto de País. A oposição (o tucano Aécio Neves) tem como principal formulador o Armínio Fraga (ex-presidente do BC) e como ícone o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ou seja, um modelo de País difícil de expor porque, ao fazer isso, o candidato vai ter de dizer que realmente terá de impor medidas impopulares.

 

Qual o tema mais sensível para a campanha neste momento: a inflação em alta, o baixo crescimento ou a queda no emprego?

É difícil falar em desemprego quando nós geramos 20 milhões de novos postos com carteira assinada - agora a meta é qualificar essa mão de obra. Sobre a inflação, queremos convergir para o centro da meta (4,5%), mas de forma gradual, de forma a evitar arrocho ou desemprego. E nesses 12 anos de governo conseguimos manter o que consideramos fatores essenciais para o crescimento, que é emprego, distribuição de renda e salário. Isso é o que conta para a maioria da população. E vamos lembrar que o FHC entregou o País com 12,5% de inflação e a média de sua gestão era de 10%. Então, menos...

Qual a sua avaliação sobre as críticas de que o governo Dilma destruiu os pilares macroeconômicos?

O câmbio está totalmente bem administrado. Temos uma economia que não é mais vulnerável. Que fundamentos nós destruímos se temos US$ 375 bilhões de reservas, quando tínhamos apenas US$ 35 bilhões quando o Lula (ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva) assumiu? Qual economia está com os fundamentos abalados?

O Aécio Neves afirmou que vai anunciar nomes de eventuais ministros para acalmar o mercado.

Cada um tem suas escolhas. Mas nós preferimos não ficar antecipando (nomes) porque respeitamos a manifestação da população e ela só será expressa depois da apuração nas urnas (em outubro). Além do mais, ninguém ganhou ainda a eleição para ficar escolhendo ministros. Nomear ministro antes de ganhar a eleição é se antecipar ao veredicto das urnas.

O senhor acredita que a presidente Dilma precisa acalmar o mercado financeiro?

Temos um amplo mercado consumidor que cresceu bastante a partir da vitória do Lula, quando a política salarial permitiu um aumento real de 70% do salário mínimo, promovendo uma distribuição de renda inédita, num curto período. E neste mercado nós temos boa aprovação. Mas, como não há unanimidade numa eleição, ela tem de fazer o seu programa de governo não para acalmar ou agitar o mercado (financeiro), mas para ser coerente com este projeto que vem dando certo no Brasil há 12 anos.

Qual a sua avaliação sobre as recentes críticas do FMI à economia brasileira?

Hoje somos credores do FMI, passou o tempo em que vinha uma pessoa aqui (no País) com pasta na mão para dizer que a gente devia fazer. Temos de ver melhor essas avaliações que vêm de fora, incluindo as das agências de risco, porque este tipo de avaliação contribui para espalhar o pessimismo.

E o episódio Santander (que divulgou um informe a clientes dizendo que o cenário econômico iria deteriorar se Dilma fosse reeleita) já está superado?

Sim. Quem se penitenciou foi a direção mundial do banco, que resolveu demitir. Nós só condenamos a distorção no informe, que não estava retratando o cenário. Estava dizendo que se a Dilma ganhasse as eleições, as coisas iriam piorar. Isso não é uma avaliação técnica, isso é juízo político.

A rejeição da presidente Dilma Rousseff, identificada nas pesquisas de intenção de voto, preocupa o comando de campanha?

Existe uma rejeição estrutural de um terço do eleitorado. Essa situação ocorre mais especificamente em São Paulo, onde está o núcleo maior do grande capital, onde está a maior expressão da mídia monopolizada e onde tem a força do nosso principal opositor, os tucanos. Contudo, à medida que a população de São Paulo for conhecendo com maior profundidade tudo o que foi feito nesses 12 anos, a tendência é que a gente reduza a nossa rejeição e amplie a dos opositores.

Vocês já trabalham com cenário de segundo turno?

Trabalhamos com cenário para ganhar essas eleições. Se necessário, faremos o segundo turno.

Como o PT vai tratar de temas como o escândalo do mensalão, que levou para a prisão alguns ex-dirigentes do partido?

O pioneiro (no mensalão) foi o PSDB, que introduziu a prática do caixa 2, e não o PT. Enveredamos por um caminho equivocado, mas isso não nos isenta. Foi um erro que, entretanto, ao ser admitido, não justificava o processo que se estabeleceu, fazendo um julgamento midiático e com violação dos princípios elementares do direito. Então, a melhor maneira de se trabalhar isso é fazer o debate sobre a corrupção nestas eleições. Ninguém criou tantas instituições de combate à corrupção como os governos do PT. Nós queremos fazer este debate e não o tememos.

Num eventual segundo mandato como deve ser tratada a questão da regulação da mídia?

Nós do PT vamos continuar batalhando por isso, pois a Constituição proíbe monopólio e oligopólio. Fora daí, nós não queremos nenhum controle de conteúdo.

Mas o PT e o governo reclamam da cobertura da mídia.

A mídia monopolizada, que funciona como partido de oposição, tem feito campanhas contra a Copa, contra a economia em geral, diziam que teria crise cambial. Não me refiro aos jornalistas, mas à orientação editorial. Se tivéssemos uma democratização da mídia, melhoraríamos as condições de trabalho.

O ex-presidente Lula continua sendo o grande cabo eleitoral do PT nessas eleições?

Com certeza. A disposição dele é total. Lula vai dosar a agenda dele nos locais de maior densidade eleitoral, mas também nos locais em que podemos ampliar nossa vantagem, como o Nordeste. Ele fará também muitas gravações para o horário eleitoral gratuito.

Qual a expectativa em relação à campanha da Dilma?

Muito otimista. Porque nós temos convicção que fizemos mais do que qualquer outro governo e que, portanto, temos credenciais (para continuar governando). Somos os principais propagadores de que é preciso mudar o País. E nós não fizemos todas as mudanças necessárias porque 12 anos é muito pouco tempo.

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