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Nem tanto às chamas

É como se diz: de boas intenções o inferno está cheio. A presidente Dilma Rousseff não teve - isso fica evidente no exame do contexto da declaração - o propósito de pregar a lógica da terra de ninguém em períodos de campanhas eleitorais.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h05

"Se a gente está no exercício do mandato, temos que nos respeitar porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro", disse a presidente durante encontro com prefeitos e o governador da Paraíba ao defender a ideia de que "desde o início do governo Lula" mudou a forma de relacionamento do governo federal com os partidos.

Segundo ela, o tratamento é igual para todas as administrações, independentemente de serem comandadas por governistas ou oposicionistas. Até aí, nada demais, a não ser o distanciamento da realidade pintada com cores mais leves do que na verdade se apresenta. No cotidiano, prefeitos e governadores não fazem declarações de caráter crítico na política justamente para não correrem o risco da retaliação política.

Há prestadores de serviços ao governo federal que recentemente foram sutilmente alertados de que não estavam sendo bem vistas tentativas de aproximação deles com a equipe do governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, por causa de possível candidatura à Presidência. Se tivesse parado na defesa de sua isenção, Dilma teria incorrido apenas no pecadilho da inverdade oratória. Mas a presidente resolveu dizer mais e aí contrariou a tese que acabara de defender e traiu o dever de, como governante, guardar a devida reverência às regras.

"Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição", afirmou a presidente, talvez referida no exemplo de seu antecessor e criador, Luiz Inácio da Silva que, de fato, fez o diabo a quatro para elegê-la: usou o cargo, abusou da máquina, afrontou a Justiça Eleitoral e contrariou seu juramento de posse de prestar obediência à Constituição.

Queira o respeito devido à legalidade que a presidente da República não acredite que o que se viu durante a campanha de 2010 seja normal.

Em época de campanha os ânimos ficam acirrados, coisas são ditas com o único intuito de conquistar votos - a promessa do PT em 2002 de "mudar" a política econômica -, há mesmo certa liberalidade inerente ao ambiente de disputa.

Não podemos ir tanto ao mar, exigindo que se façam trocas de gentilezas entre adversários, mas tampouco devemos ir tanto à terra, imaginando que, porque há eleições, não há regras.

Dilma foi às chamas ao invocar o vale-tudo eleitoral contido nessa frase, em tudo e por tudo um palpite infeliz. E, do ponto de vista de quem vai disputar votos daqui a dois anos, até contraproducente, pois os adversários ou aliados ma non troppo, podem tomar a declaração ao pé da letra e se sentir no direito de "fazer o diabo" para tentar impedir a presidente de se reeleger.

Ontem já havia gente no PMDB anotando a frase no caderninho para mais adiante devolvê-la à presidente em caso de cobrança de fidelidade irrestrita.

Vai mal. Não há dor nas costas, excesso de trabalho nem pedido de desculpas por intermédio da assessoria de comunicação que justifique ou amenize a gravidade da atitude do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

Não quis nem ouvir a pergunta do repórter do Estado que, junto com outros profissionais o abordava em local público, sobre assunto de interesse público inerente à sua função de funcionário público: chamou o jornalista de "palhaço" e o mandou ir "chafurdar no lixo". É de se parafrasear Fernando Gabeira e indagar: o que é isso, excelência?

Tão festejado nas ruas, reconhecido pelo trabalho como relator no processo do mensalão, Joaquim Barbosa demonstra, assim, não estar à altura da notoriedade. Desqualifica o Supremo.

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