Negócios do Brasil

Hoje qualquer alfabetizado digital com um cartão de crédito pode fazer uma reserva no hotel que quiser pela internet, sem pagar comissão a ninguém. É o que milhões de pessoas fazem no mundo inteiro.

Nelson Motta, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2012 | 03h02

Como são esperados 30 mil visitantes para a Rio+20, o Itamaraty resolveu fazer uma licitação para uma só agência centralizar todas as reservas - e ganhar sozinha todas as comissões. São cerca de 300 mil diárias durante 10 dias. Uma comissão de 10% sobre uma diária média, modesta, de R$ 400, já seria um faturamento de R$ 12 milhões.

Só faz sentido uma agência ter exclusividade para as reservas de hotéis em um grande evento se for para diminuir os custos com a operação centralizada e conseguir, pelo volume, descontos dos hotéis e repassá-los, em parte, aos clientes; ou então para explorar impunemente os otários indefesos.

A sede foi maior do que o pote e a fonte secou: com a faca, o queijo e a máquina de cartão de crédito na mão, a agência Terramar estava mordendo R$ 504 numa diária de hotel cinco estrelas vendida a R$ 1.560, e R$ 261 nos quatro estrelas, que vendiam a R$ 948. Depois de protestos internacionais, foi obrigada pelo governo a devolver as comissões abusivas e liberar 10 mil quartos bloqueados. Foi constrangedor.

E um diretor da Terramar ainda veio dizer que é normal uma agência receber comissão de 25% sobre uma diária. Pelo trabalho de mandar um e-mail com a reserva e um número de cartão de crédito. Em que lugar do planeta agências ganham 25% do valor de uma diária para reservar um quarto? Só no Brasil, que não por acaso tem hoje os hotéis mais caros do mundo - e as agências mais espertas. Imaginem na Copa do Mundo, com uma agência escolhida pela Fifa, CBF e Ricardo Teixeira?

Nelson Rodrigues chamava um bom negócio, uma oportunidade de ouro, de "negócio da China", "galinha morta", "negócio de pai para filho caçula". Ficaria horrorizado em saber que as galinhas mortas (e congeladas) são hoje um dos nossos principais produtos de exportação e que agora, quando um chinês tenta vender a outro uma pechincha, diz em mandarim: "É uma moleza. Um negócio do Brasil!"

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