Arquivo/Estadão
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Natal relembra visita de Roosevelt 70 anos depois

Carreata organizada por pesquisadores percorrerá mesmo trajeto de comitiva americana no encontro com Getúlio Vargas

PABLO PEREIRA , ENVIADO ESPECIAL / NATAL, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2013 | 02h02

A calorenta Natal, capital do Rio Grande do Norte, tinha cerca de 50 mil habitantes - hoje tem mais de 803 mil - quando o Boeing B-314 do governo dos EUA aterrissou no Rio Potengi na manhã do dia 28 de janeiro de 1943. Do hidroavião desceu o presidente Franklin Delano Roosevelt, que com Winston Churchill, da Inglaterra, Charles De Gaulle, da França, e Josef Stalin, da então União Soviética, formavam o quarteto de forças que dois anos depois, em 1945, derrotaria o famigerado chefe nazista Adolf Hitler na Segunda Guerra.

A histórica passagem do líder norte-americano pelo Brasil, para se encontrar com o então presidente Getúlio Vargas, há 70 anos, será lembrada hoje, a partir de 10h, em uma carreata organizada por pesquisadores da Fundação Rampa, ONG que se dedica à memória da aviação e ao patrimônio histórico de Natal.

"Percorremos um dos trajetos descritos por testemunhas dessa visita, que ainda vivem aqui em Natal", diz Fred Nicolau, 48 anos, diretor de pesquisa e ensino da fundação. O passeio marca também um esforço de conservação da presença militar dos EUA na cidade. Prédios e estruturas construídas pelos soldados no início dos anos 40 estão abandonados e degradados na área do bairro da Ribeira, centro antigo da cidade.

São instalações ampliadas de uma estação de passageiros usada pela antiga empresa aérea Panair e uma base de hidroaviões militares dos EUA levantadas bem ao lado de uma área de operações da aviação alemã existente até o início do sangrento conflito internacional, hoje ocupada por militares do Exército brasileiro. Para restauração do patrimônio dos americanos na cidade, um projeto aguarda a liberação de cerca de R$ 8 milhões.

"Este trabalho da Fundação Rampa é muito importante para a conservação da memória brasileira", afirma o tenente-coronel aviador aposentado Fernando Hippolyto da Costa, 85 anos, um estudioso da visita de Roosevelt. Ex-piloto da Força Aérea Brasileira (FAB), com mais de 5 mil horas de comando, o coronel formou-se piloto no Rio, mas vive em Natal para onde foi transferido logo após o final da guerra.

Mocinha. Para a mulher dele, Lúcia, também de 85 anos, a comemoração do encontro de 28 de janeiro é uma oportunidade para reviver os tempos de mocinha. "Eles passaram aqui na esquina de casa. Fui lá com uma amiga, hoje já falecida, para ver", conta. "Vieram no jipe, Roosevelt na frente, ao lado do motorista. Atrás estava Getúlio, ao lado de um outro militar", diz ela. "Era o almirante Ingram (Jonas Howard Ingram, um comandante da Marinha americana)", diz o marido, emendando: "A visita é um fato histórico importante para o País".

Sem documento. De acordo com Fred Nicolau, o programa do passeio, com apoio da Secretaria de Turismo do Estado do RN, já foi realizado em anos anteriores. "O do ano passado foi um sucesso", lembra o organizador. Ele explica que não há documentos escritos da época que comprovem o exato itinerário percorrido pelos presidentes. "Nós estamos reconstruindo o caminho com base em umas poucas imagens e em depoimentos de testemunhas que viram a passagem dos carros", conta Nicolau.

Para José Tupinambá, de 85 anos, funcionário público aposentado, que também testemunhou a visita, a carreata comemorativa é uma lembrança especial. O caminho dos presidentes se inicia bem diante da casa dele. Morador do bairro da Ribeira, região do centro antigo de Natal desde garoto, Tupinambá era adolescente naquele janeiro distante. Ele recorda que viu quando o jipe partiu da Rampa com os dois líderes. "Eu era menino ainda e morava aqui. Naquele dia, fui lá ver o movimento", relembra. Com um livro sobre o tema no prelo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Tupinambá é vizinho da Rampa desde a época da chegada dos americanos. "A gente conviveu com eles por aqui. Eram gente boa", afirma. "Hoje está tudo abandonado", lamenta o entusiasmado contador da histórica visita.

Roosevelt e Vargas passearam pela cidade e seguiram até a Base Aérea de Parnamirim, a 12 quilômetros de Natal, no município de Parnamirim, e local do Aeroporto Internacional Augusto Severo, que fica ao lado da atual Base Aérea de Natal (BANT).

Pós-ditadura. Recentemente, nos anos da ditadura pós-64, a base foi usada também para treinamento antiguerrilha e serviu de prisão para opositores do regime militar, como relata o livro "A História de Parnamirim", do escritor Carlos Peixoto (Editora Z Comunicações, 2003). "A BANT também cedeu suas dependências para a prisão de opositores ao regime militar, ficando conhecida entre militantes da esquerda política como centro de repressão e torturas", diz o autor.

Após a reunião, e o almoço a bordo do navio americano Humboldt, ancorado no Potengi, perto da Avenida Tavares de Lira, Roosevelt e Vargas rodaram por Natal em um veículo militar, um jipe sem capota, partindo do prédio, construído em 1942, hoje conhecido como "Rampa". Durante o trajeto, Roosevelt foi acomodado sobre o que parece, em imagens de cinema, ser uma almofada branca para diminuir o desconforto do banco do veículo militar. Responsável pela política de recuperação econômica dos EUA e pela autorização da construção da bomba atômica, Roosevelt morreu em abril de 1945, meses antes da rendição alemã.

Da Rampa de Natal, onde há também resquícios da antiga plataforma por onde eram içados os aviões para um estacionamento, hoje tomada por embarcações de pesca artesanal, saem todo ano os carros na passeata comemorativa, liderados por um veículo que imita o original Jeep número 7, da cena histórica. "Trata-se de um jipe Willys, ano 1942, chassis MB-137814 e motor MB 239358", relata o escritor Roberto Muylaert, descrevendo o carro da foto famosa que ilustra a capa do seu livro, 1943, Roosevelt e Vargas em Natal, lançado em outubro último pela Editora Bússola.

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