‘Não vou fazer toma lá dá cá’, diz Haddad sobre apoio

Prefeito eleito afirma que governo será de coalizão, espera apoio do PSD e até do PSDB a suas propostas e acha legítimo que PT critique julgamento do mensalão

Vera Rosa, Fernando Gallo e Bruno Lupion, de O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2012 | 02h02

O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), disse que não vai abrigar partidos no secretariado apenas para obter votos na Câmara Municipal. Ele afirmou esperar o apoio do PSD do prefeito Gilberto Kassab e do PSDB do governador Geraldo Alckmin, com quem conversou ontem, e negou que vá ceder a pressões políticas. Questionado pelo Estado se não seria necessário recorrer ao toma lá dá cá na política, foi taxativo: "A resposta é não. Não faço toma lá dá cá".

Haddad garantiu que as pressões por cargos não o afetam. "A ansiedade, até chegar a mim, vai se diluindo", afirmou o petista. "Começa em alto-mar e, quando chega na praia, que é onde estou, chega rasa."

Para ele, o PT tem todo o direito de produzir uma nota em defesa dos réus do mensalão. "Não podemos simplesmente circunscrever os problemas do sistema político brasileiro a uma agremiação. Ou o PSDB não passou por problemas terríveis?", indagou o prefeito eleito, dizendo esperar que o Supremo Tribunal Federal julgue o "mensalão tucano".

A cúpula do PT deve lançar manifesto amanhã em defesa dos réus do mensalão. Ao encerrar a entrevista, Haddad desabafou: "Será que eu vou ter de passar a vida toda respondendo sobre mensalão?"

O sr. foi eleito sob a bandeira da mudança. Como vai justificar a mudança tendo o prefeito Gilberto Kassab como aliado?

Não estou, neste momento, tratando das alianças do governo. Tenho um plano de governo que foi aprovado nas urnas e que a cidade quer ver se tornar realidade. Ele é meu guia para encaminhar projetos para a Câmara dos Vereadores. Tenho um orçamento e leis importantes para aprovar, o Plano Diretor, zoneamento. Quando você tem um plano estruturado, o diálogo com a Câmara se torna muito mais fácil. O plano que foi aprovado é diferente do que está em vigor. Eu não defendi uma bandeira pessoal.

Kassab garantiu que vai trabalhar a quatro mãos com o sr. na transição e o PSD deve entrar na base do governo Dilma Rousseff. O partido também fará parte do seu secretariado?

Leve em consideração o meu passado. Contei com apoio da oposição para aprovar duas emendas constitucionais e 40 projetos de lei. Não é possível que esse esforço, feito durante meus seis anos à frente do Ministério da Educação, não seja um testemunho da minha disposição para construir consensos em torno de propostas que atendam ao interesse público. Não me debrucei ainda sobre os nomes (de secretários). Começo a discutir isso na segunda-feira. Não vou queimar etapas.

Mas o sr. vai depender da bancada de vereadores de Gilberto Kassab para obter apoio na Câmara...

Se os vereadores quiserem, inclusive os do PSDB, votar nas propostas que saíram das urnas... Por que não posso contar com a oposição para votar a reforma urbana? A minha disposição, inclusive com o PSDB, vai ser a de construir a reforma que a cidade de São Paulo precisa.

O sr. não acha que está sendo ingênuo? Em seu próprio partido, o PT, há pressão desenfreada por cargos.

Pode até haver ansiedade, o que eu acho natural. Mas essa ansiedade, até chegar a mim, vai se diluindo. Começa em alto-mar e, quando chega na praia, onde estou, chega rasa.

O sr. está dizendo que não faz toma lá dá cá na política...

Olha, o que quer dizer a sua pergunta? Que eu vou colocar um interesse menor? A resposta é não. Não faço toma lá dá cá. Vou fazer um governo de coalizão e entendo que o procedimento que a presidenta Dilma adotou para compor a sua maioria é adequado. Mais claro do que isso, impossível.

O PP pode ter espaço no governo?

Depende. Ele participa do governo Alckmin e, se eu disser que não, poderia ofender o governador.

A Justiça de Jersey está para encerrar o processo para recuperar US$ 22 milhões que teriam sido desviados da Prefeitura por Paulo Maluf, seu aliado. Para essa decisão valer no Brasil, a Prefeitura teria que acionar o Superior Tribunal de Justiça. O sr. fará isso?

O que for do interesse de São Paulo, independentemente de qualquer outra coisa, será feito. Seja quem for, pode ser contra quem for.

Depois de uma campanha marcada por ataques, o sr. fará algum gesto para distensionar o ambiente político?

Os gestos são esses que eu tenho procurado demonstrar. Procurei o prefeito, procurei o governador e, obviamente, a presidente. São gestos importantes para mostrar que divergências são discutidas durante a campanha.

Fará algum aceno na direção do candidato derrotado do PSDB, José Serra?

Recebi um telefonema muito cordial do José Serra, que sempre me tratou pessoalmente muito bem, e vice-versa. Nunca tivemos desavenças de caráter pessoal. Temos amigos comuns.

Serra está liquidado politicamente?

Não vejo assim. É um quadro importante do PSDB, uma pessoa que tem muito prestígio dentro do seu próprio partido. Foi duas vezes candidato a presidente pelo partido.

O sr. disse que é o segundo poste do ex-presidente Lula. Nessa estratégia de renovação de quadros no PT há algum outro poste a emplacar na eleição para o governo do Estado, em 2014?

Não (risos). Isso foi uma conversa com a militância, na Avenida Paulista, celebrando a vitória. É isso.

A dívida da Prefeitura com a União, que está em R$ 52 bilhões, é considerada impagável. O indexador para a correção pode ser trocado pela taxa Selic?

Essa é uma hipótese concreta. A taxa de juros do contrato, hoje, é absolutamente inadequada. A partir da semana que vem, trataremos diretamente com a equipe econômica.

Em 12 anos, a dívida cresceu R$ 42 bilhões. Foi de R$ 10 bilhões quando o sr. era chefe de gabinete na Secretaria das Finanças, no governo Marta Suplicy. Naquela ocasião, a Prefeitura não quis fazer a amortização de 20% desse valor. O sr. se arrepende?

Não havia recursos. O contrato já foi amarrado para que a decisão não pudesse ser tomada.

Haverá uma devassa nas contas da Prefeitura de São Paulo?

O que eu me comprometi a fazer é criar uma Controladoria-Geral para inibir o malfeito antes de ele acontecer. O ideal é ter estrutura preventiva, que aponte vulnerabilidades da máquina, para que sejam superadas.

O sr. vai propor alguma taxa para cobrir o déficit da Prefeitura?

Não.

E vai fixar critérios para o IPTU progressivo no 1º ano de governo?

Pretendo. Isso já está aprovado pela Câmara, mas não está em operação. É sobre imóveis ociosos no centro. Eu defendo o principio de que um imóvel tem que ter função social.

Por que o fim da taxa da inspeção veicular e o Bilhete Único Mensal só valerão para 2014?

Dei um prazo máximo. No caso da taxa, precisa de um projeto de lei. Como é que vou abolir um tributo sem lei? Para o Bilhete Único, preciso de dotação orçamentária, do valor correspondente ao subsídio.

Quando chegam os recursos federais para creches?

O dinheiro já está disponível. O convênio só não pôde ser feito esse ano porque é ano eleitoral.

O sr. vai rever proibições da gestão Kassab, como a Lei do Silêncio?

A queixa de donos de bares e restaurante, pastores, não é tanto sobre a legislação, mas sobre a maneira como vem ela sendo aplicada. Não há previsão de revisão da lei, mas o compromisso de que o tratamento dado será de outro tipo.

A Executiva Nacional do PT deve lançar na quinta-feira (amanhã) nota em defesa dos réus do mensalão, apontando a politização do julgamento. O sr. concorda com isso?

Vamos esquecer os dirigentes partidários, que podem estar movidos por emoção. Vamos tomar juristas importantes. Tenho lido, aqui e ali, comentários de juristas, que não têm vínculo partidário, manifestando preocupação com questões delicadas. Vamos dar voz para as pessoas que porventura divergem. Interditar esse balanço não me parece democrático. Para mim, é muito importante saber como o STF vai julgar o mensalão do PSDB.

Por que?

É a conclusão de um processo, que tem a mesma gênese. Eu penso que nós vamos ter clareza de todo o processo, se ele for a termo.

Mas o sr. representa o novo PT, que não está envolvido em escândalos. Na sua opinião, o partido deve adotar novas práticas na política?

O que eu penso é que não deveríamos agir como algumas pessoas gostariam, de simplesmente circunscrever os problemas do sistema político a uma agremiação. Isso não é verdade. Há problemas de gravidades e gradações diferenciadas, que envolvem todos os partidos. Ou o DEM não passou por problemas terríveis, o PSDB não passou por problemas terríveis? Vamos negar imagens, evidências, documentos? Essa obsessão em negar que há outros processos em curso, e que eles também serão julgados, é que me parece preocupante.

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