'Não tenho culpa de fazer 70 anos; quero ser julgado'

Denunciado no processo do mensalão mineiro, Walfrido chega a idade com a qual pode pedir benefício previsto em lei

Entrevista com

EDUARDO KATTAH, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h03

Ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva, Walfrido dos Mares Guia completa 70 anos hoje e poderá requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, pelos quais foi acusado no processo do chamado mensalão mineiro. O Ministério Público afirma que Walfrido está envolvido no esquema de desvio de verbas públicas para financiar a reeleição de Eduardo Azeredo (PSDB), hoje deputado, ao governo de Minas em 1998. Em entrevista ao Estado, disse que a culpa da prescrição dos crimes é a lentidão da Justiça. O ex-ministro criticou a denúncia da Procuradoria-Geral da República, apresentada em novembro de 2007.

O sr. completa 70 anos neste sábado. Vai requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro?

Eu não vou requerer, não vou tomar iniciativa nenhuma por enquanto. Desde o momento que eu deixei a SRI (Secretaria de Relações Institucionais), em novembro de 2007, eu trabalho na minha defesa. Eu saí do governo, pedi ao presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) que me liberasse para me defender às minhas custas e não escondido atrás de um cargo importante do governo federal. Eu saí do governo com o objetivo de limpar a minha biografia. Sou inocente e quero provar isso de maneira definitiva. Quero ser julgado no mérito. Não tenho culpa de estar fazendo 70 anos cinco anos depois que eu fui indiciado (denunciado). Essa situação é uma espécie de purgatório. Ao mesmo tempo em que sou réu, sou tratado como se já fosse culpado. Mesmo que eu receba esse benefício, vou continuar esperando o julgamento, porque a única coisa que me interessa é ter meu nome limpo em função de eu não ter tido envolvimento nenhum com a campanha efetiva do Eduardo Azeredo em 1998.

O sr. ainda pode ser julgado?

A informação que tenho dos advogados é que essa é uma questão que está explicitada na lei (prescrição), é de ofício. Da mesma forma que uma pessoa que está ocupando um cargo público faz 70 anos e sai, as circunstâncias que a lei descreve num caso como o meu são equivalentes. De maneira que não me cumpre protestar ou gostar disso, é uma situação específica. Agora, por meio dos meus advogados, eu tenho todos os fatos, documentos e testemunhas para provar minha inocência de uma maneira cabal. Todas as testemunhas que foram ouvidas até o momento (na 9.ª Vara Criminal em Belo Horizonte) confirmaram que eu não fui coordenador da campanha do Eduardo Azeredo e que passei o segundo semestre de 1998 viajando pelo interior de Minas fazendo minha campanha de deputado federal.

A denúncia diz que o sr. tinha pleno conhecimento da engrenagem "criminosa".

Essa é uma afirmação absurda. Realmente fiz no fim de maio, começo de junho - como eu tinha experiência eleitoral, e o Cláudio Mourão ia ser o coordenador administrativo-financeiro da campanha e ele era secretário de Administração do Azeredo -, nós fizemos uma reunião em que fiz uma minuta do que achava que seria um orçamento, devido à minha experiência. Peguei duas folhas de papel e fui anotando, comitês do interior, da região metropolitana de Belo Horizonte, televisão, material impresso, e estimando números redondos na frente. Foi apenas isto, um rascunho. Entreguei isso ao Cláudio Mourão e isso virou um documento acusatório contra mim. Depois disso participei de uma reunião - a outra imputação que tem contra mim além desse rascunho, desse pré-orçamento - quando o Eduardo escolheu o Duda Mendonça como seu marqueteiro. Tinha mais de dez pessoas nessa reunião. A parte de envolvimento financeiro é uma ilação, uma suposição. Não tem prova de nenhuma natureza que eu sequer tenha me reunido com alguém para tratar de recurso da campanha do Eduardo.

O sr. se lembra do Marcos Valério durante a campanha de Eduardo Azeredo?

Eu não participei da campanha. A primeira vez que encontrei o Marcos Valério foi depois que a campanha acabou. Ele era um dos sócios da SMPB, que tinha a principal conta do governo.

O Ministério Público diz que o que aconteceu em Minas em 1998 foi o embrião do mensalão.

Não tenho como comentar isso, porque não participei. O fato de a SMPB ter ajudado na campanha do Eduardo era um apoio que era natural, era natural as agências de propaganda participarem dando cobertura de marketing, sugestões de material de campanha.

Preferiria ser julgado no STF?

Em qualquer lugar em que tivesse sido julgado seria inocentado. Não tem nada contra mim a não ser ilação. A denúncia é de uma inépcia absoluta.

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