'Não gosto para ninguém, nem para o Zé Dirceu', diz Jefferson

Delator do mensalão, com a saúde abalada, afirma que diverge do relator porque 'não alugou sua bancada'

ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h08

O presidente nacional do PTB e deputado federal cassado, Roberto Jefferson, comprava remédios numa farmácia no Rio enquanto o ministro-relator Joaquim Barbosa pedia sua condenação por corrupção passiva no plenário do Supremo Tribunal Federal. Ele não acompanhou a leitura do voto. Voltou a dizer, no entanto, que não cometeu atos que caracterizem a prática de corrupção.

Horas antes, o ex-parlamentar havia recebido alta do Hospital Samaritano, na zona sul, onde ficou internado uma semana para se recuperar de problemas gastrointestinais e desidratação. Estava 9 kg mais magro. Jefferson foi submetido à retirada de um tumor maligno na região do pâncreas em julho. A internação obrigou sua equipe médica a adiar em uma semana o início da quimioterapia.

"Entendo que ele (Barbosa) está mantendo a mesma posição do início do julgamento, que é a posição do Ministério Público Federal. Essa corrupção passiva não se aplica a mim. Divirjo abertamente. Eu não aluguei a minha bancada no mensalão. Eu não corrompi a minha bancada em atos de ofício em favor do governo. Isso é bobagem", disse o presidente do PTB. "Do ministro Joaquim eu nunca esperei nada. Eu divirjo, mas respeito a decisão do ministro."

Solidário. Jefferson não fez previsões sobre o resultado de seu julgamento. Disse que pretende aguardar a manifestação dos demais ministros. "A cada dia o seu mal. Vou aguardar cada um se pronunciar", disse.

Ele se mostrou solidário com os representantes do antigo PL (atual PR) que também tiveram suas condenações pedidas pelo ministro-relator. Disse que entendia o sofrimento pelo qual está passando até mesmo o deputado federal Valdemar Costa Neto, presidente e líder da legenda na época do escândalo, com quem Jefferson protagonizou violentas trocas de acusação.

"Não me regozijo. O sofrimento que estou passando imagino que é o mesmo que ele esteja vivendo. Se eu não gosto para mim, não gosto para ninguém", afirmou o ex-parlamentar. "Nem para o Zé Dirceu", completou, referindo-se ao ex-ministro da Casa Civil, apontado por ele como o mentor do mensalão.

Com a saúde muito abalada pela extração do tumor, a reversão de uma cirurgia de redução no estômago e todos os problemas decorrentes, Jefferson demonstrou abatimento. Disse que seu protagonismo acabou no "ringue político" e que hoje é apenas mais um acusado no STF.

"Hoje, estou nivelado na acusação. Sou acusado como todos os outros. A minha posição de protagonista passou. Foi no ringue político. Nesse do Supremo, eu sou réu como todos os demais", disse o pivô do mensalão.

Seu advogado, Luiz Francisco Corrêa Barbosa, disse que vai aguardar a conclusão do voto do relator, mas já fez algumas ressalvas. "(O relator) fez confusão de datas, mas isso ainda pode ser corrigido. Jefferson é testemunha, não é autor, nem recebedor. Não há possibilidade de lavagem sem que se tenha ciência prévia da origem do recurso. Isso o relator não enfrentou."

Pelo telefone, Corrêa Barbosa fez um resumo a Jefferson do voto do ministro. "Ah, muito bem. Vamos aguardar", respondeu o delator do mensalão.

A assessoria de Costa Neto, acusado de corrupção, lavagem e formação de quadrilha, informou que ele acompanhou pela TV o voto do relator, mas não iria se manifestar. / COLABOROU FAUSTO MACEDO

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